O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Secção · 04

Coração e circulação

Angina, enfarte, má circulação nas pernas e insuficiência cardíaca costumam aparecer como quatro doenças diferentes, com quatro médicos e quatro caixas de comprimidos. Na verdade são capítulos da mesma história — e perceber isso muda o que se faz a seguir.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.

Três nomes, uma doença

Quase tudo o que está nesta secção começa no mesmo sítio: a placa de gordura que se forma na parede das artérias. Chama-se aterosclerose, e é a mesma doença explicada em detalhe na página das dislipidemias.

O nome que a doença recebe depende apenas de onde a placa se instalou. Nas artérias do coração chama-se doença coronária. Nas pernas, doença arterial periférica. No cérebro, AVC. O processo é idêntico; muda a morada.

Fatores de risco tensão · colesterol · tabaco · diabetes Placa nas artérias cresce durante décadas, em silêncio NAS ARTÉRIAS DO CORAÇÃO Angina dor no peito ao esforço Enfarte a artéria fecha; o músculo morre Insuficiência cardíaca o coração cansado já não chega NAS ARTÉRIAS DAS PERNAS Claudicação dor na barriga da perna ao andar Isquemia crítica dor em repouso, pé frio e pálido Ferida que não sara o caminho para a amputação
As três doenças desta secção são capítulos da mesma história. É por isso que quem tem uma tem de ser investigado para as outras — e por isso que o tratamento de base é comum.
A consequência prática é grande. Quem tem dor nas pernas ao andar tem uma probabilidade muito alta de ter também placa nas coronárias — e morre mais frequentemente do coração do que das pernas. É por isso que um diagnóstico num território obriga a olhar para os outros.

Onde é que a placa se instala

A mesma placa, em quatro moradas diferentes A AORTA E OS SEUS RAMOS Artérias do cérebro AVC e demência vascular Artérias do coração Angina e enfarte Artérias dos rins Tensão alta e perda de função renal Artérias das pernas Claudicação, feridas, amputação
A aterosclerose não escolhe um órgão — instala-se onde houver artérias. Descobrir placa num território é razão para procurar nos outros, mesmo sem sintoma nenhum.

Nem toda a insuficiência cardíaca vem da placa — a tensão alta mal controlada durante anos, doenças das válvulas, arritmias e infeções do músculo cardíaco também a causam. Mas o enfarte continua a ser uma das causas mais frequentes, e é a ligação que fecha a cadeia.

Os fatores de risco são os mesmos

Esta é a melhor notícia desta secção: como a doença de fundo é uma só, o que a trava é o mesmo em todos os territórios. Não há uma dieta para o coração e outra para as pernas.

O que se pode mudar
  • Tabaco — o mais importante de todos, e de longe o pior para as pernas
  • Colesterol LDL alto
  • Tensão arterial alta
  • Diabetes mal controlada
  • Excesso de peso e sedentarismo
O que não se pode mudar
  • Idade
  • Sexo masculino, até à menopausa da mulher
  • História familiar de enfarte ou AVC em idade jovem
  • Lipoproteína(a) alta — genética, mede-se uma vez na vida

Não se mudam — mas contam para decidir com que agressividade se trata tudo o resto.

Deixar de fumar é a única medida que atua nos quatro territórios ao mesmo tempo, e a que dá resultado mais depressa. Na doença das pernas, é a diferença entre estabilizar e caminhar para a amputação.

O tratamento de base é comum

Independentemente de qual das três tem, há um conjunto de medidas que se aplica a toda a gente com aterosclerose confirmada. Muda a dose e o detalhe, não a lógica.

O que é comum às três
MedidaPorquê
Antiagregante
aspirina ou clopidogrel
Torna as plaquetas menos pegajosas, para que uma placa que rompa não forme logo um coágulo que fecha a artéria.
Estatina de alta intensidade Estabiliza a placa e baixa o LDL. Nestes doentes o alvo é abaixo de 55 mg/dL — dos mais exigentes que existem.
Controlo da tensão arterial Menos pressão contra a parede significa menos desgaste e menos probabilidade de a placa romper.
Deixar de fumar Não há medida farmacológica com este impacto. Nenhuma.
Controlo da diabetes Duas das famílias usadas hoje na diabetes reduzem também enfartes e internamentos por insuficiência cardíaca.
Exercício regular Na doença das pernas é literalmente terapêutica: caminhar até doer, parar, retomar — faz crescer circulação nova.

Qual das três é a sua

O que as distingue no dia a dia é o sintoma — e sobretudo o que o desencadeia.

Os três alarmes

Cada uma tem uma emergência própria. Vale a pena saber as três, porque quem tem uma tem risco das outras.

Ligue 112 imediatamente perante qualquer uma destas:

  • Dor ou aperto no peito que não passa ao fim de alguns minutos de repouso, sobretudo com suores, náuseas ou falta de ar — é um enfarte até prova em contrário.
  • Uma perna que fica de repente fria, pálida, dormente e muito dolorosa — é uma artéria a fechar de forma aguda, e há poucas horas para a salvar.
  • Falta de ar súbita e intensa, sobretudo se não conseguir estar deitado — pode ser água nos pulmões por insuficiência cardíaca descompensada.
  • Boca ao lado, braço sem força, fala arrastada — é a mesma doença no cérebro, e também é 112.

Para o que preocupa mas não é emergência — uma dor nova ao andar, uma ferida no pé que não fecha, ganhar dois quilos em três dias — contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou a sua equipa de saúde no mesmo dia.

Fontes

  • European Society of Cardiology. 2024 Guidelines for the management of chronic coronary syndromes e 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes.
  • ESC / EAS. 2019 Guidelines for the management of dyslipidaemias e 2025 Focused Update — alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL na doença aterosclerótica estabelecida.
  • Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 003/2025 — Via Verde Coronária no adulto.
  • Soares MA. Doença Arterial Coronária, Doença Arterial Periférica e Terapêutica da Insuficiência Cardíaca — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documentos que serviram de base à estrutura desta secção; os valores clínicos foram atualizados.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2024, ESC 2023, ESC/EAS 2019, DGS Norma n.º 003/2025.