Coração e circulação
Angina, enfarte, má circulação nas pernas e insuficiência cardíaca costumam aparecer como quatro doenças diferentes, com quatro médicos e quatro caixas de comprimidos. Na verdade são capítulos da mesma história — e perceber isso muda o que se faz a seguir.
Três nomes, uma doença
Quase tudo o que está nesta secção começa no mesmo sítio: a placa de gordura que se forma na parede das artérias. Chama-se aterosclerose, e é a mesma doença explicada em detalhe na página das dislipidemias.
O nome que a doença recebe depende apenas de onde a placa se instalou. Nas artérias do coração chama-se doença coronária. Nas pernas, doença arterial periférica. No cérebro, AVC. O processo é idêntico; muda a morada.
Onde é que a placa se instala
Nem toda a insuficiência cardíaca vem da placa — a tensão alta mal controlada durante anos, doenças das válvulas, arritmias e infeções do músculo cardíaco também a causam. Mas o enfarte continua a ser uma das causas mais frequentes, e é a ligação que fecha a cadeia.
Os fatores de risco são os mesmos
Esta é a melhor notícia desta secção: como a doença de fundo é uma só, o que a trava é o mesmo em todos os territórios. Não há uma dieta para o coração e outra para as pernas.
- Tabaco — o mais importante de todos, e de longe o pior para as pernas
- Colesterol LDL alto
- Tensão arterial alta
- Diabetes mal controlada
- Excesso de peso e sedentarismo
- Idade
- Sexo masculino, até à menopausa da mulher
- História familiar de enfarte ou AVC em idade jovem
- Lipoproteína(a) alta — genética, mede-se uma vez na vida
Não se mudam — mas contam para decidir com que agressividade se trata tudo o resto.
O tratamento de base é comum
Independentemente de qual das três tem, há um conjunto de medidas que se aplica a toda a gente com aterosclerose confirmada. Muda a dose e o detalhe, não a lógica.
| Medida | Porquê |
|---|---|
| Antiagregante aspirina ou clopidogrel |
Torna as plaquetas menos pegajosas, para que uma placa que rompa não forme logo um coágulo que fecha a artéria. |
| Estatina de alta intensidade | Estabiliza a placa e baixa o LDL. Nestes doentes o alvo é abaixo de 55 mg/dL — dos mais exigentes que existem. |
| Controlo da tensão arterial | Menos pressão contra a parede significa menos desgaste e menos probabilidade de a placa romper. |
| Deixar de fumar | Não há medida farmacológica com este impacto. Nenhuma. |
| Controlo da diabetes | Duas das famílias usadas hoje na diabetes reduzem também enfartes e internamentos por insuficiência cardíaca. |
| Exercício regular | Na doença das pernas é literalmente terapêutica: caminhar até doer, parar, retomar — faz crescer circulação nova. |
Qual das três é a sua
O que as distingue no dia a dia é o sintoma — e sobretudo o que o desencadeia.
Doença coronária
Aperto no peito ao esforço, que passa ao parar — ou uma dor que não passa e é emergência. Angina, enfarte, stents e o que se toma para o resto da vida.
Completo · 15 secçõesDoença arterial periférica
Dor na barriga da perna ao andar, que obriga a parar e alivia em poucos minutos. Feridas que não saram, pés frios, e o programa de marcha.
Completo · 14 secçõesInsuficiência cardíaca
Falta de ar e pernas inchadas, a piorar deitado. O alarme da balança, as quatro famílias que prolongam a vida, e o que mudou no sal e nos líquidos.
Completo · 17 secçõesOs três alarmes
Cada uma tem uma emergência própria. Vale a pena saber as três, porque quem tem uma tem risco das outras.
Ligue 112 imediatamente perante qualquer uma destas:
- Dor ou aperto no peito que não passa ao fim de alguns minutos de repouso, sobretudo com suores, náuseas ou falta de ar — é um enfarte até prova em contrário.
- Uma perna que fica de repente fria, pálida, dormente e muito dolorosa — é uma artéria a fechar de forma aguda, e há poucas horas para a salvar.
- Falta de ar súbita e intensa, sobretudo se não conseguir estar deitado — pode ser água nos pulmões por insuficiência cardíaca descompensada.
- Boca ao lado, braço sem força, fala arrastada — é a mesma doença no cérebro, e também é 112.
Para o que preocupa mas não é emergência — uma dor nova ao andar, uma ferida no pé que não fecha, ganhar dois quilos em três dias — contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou a sua equipa de saúde no mesmo dia.
Fontes
- European Society of Cardiology. 2024 Guidelines for the management of chronic coronary syndromes e 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes.
- ESC / EAS. 2019 Guidelines for the management of dyslipidaemias e 2025 Focused Update — alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL na doença aterosclerótica estabelecida.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 003/2025 — Via Verde Coronária no adulto.
- Soares MA. Doença Arterial Coronária, Doença Arterial Periférica e Terapêutica da Insuficiência Cardíaca — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documentos que serviram de base à estrutura desta secção; os valores clínicos foram atualizados.
Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2024, ESC 2023, ESC/EAS 2019, DGS Norma n.º 003/2025.