O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Patologia · 02

Diabetes

Catorze em cada cem adultos portugueses têm diabetes — e quase metade desses ainda não sabe. É uma doença que se mede em análises, não em sintomas, e que faz o seu trabalho em silêncio durante anos. Este guia explica o que se passa no corpo, o que os números querem dizer e o que cada medicamento está realmente a fazer.

Representação de um corpo humano em transparência com o pâncreas em destaque, ao lado de um medidor de glicemia com tira-teste, uma caneta de insulina e um frasco de insulina.
Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.

O que é a diabetes

Tudo o que come e que tem açúcar ou amido — pão, arroz, batata, fruta, massa, doces — acaba transformado em glicose, que passa para o sangue. A glicose é o combustível do corpo, mas só serve de alguma coisa quando consegue entrar nas células.

E para entrar precisa de uma chave: a insulina, uma hormona fabricada pelo pâncreas. Sem essa chave, a glicose fica a circular no sangue — e as células, ironicamente, ficam com fome no meio da abundância.

Diabetes é isto: glicose a mais no sangue, de forma persistente, porque a chave falta ou porque deixou de funcionar bem.

COMO DEVIA SER O pâncreas dá a chave A glicose entra nas células e serve de combustível. O açúcar no sangue fica normal. pâncreas insulina célula aberta · glicose entra DIABETES TIPO 1 Não há chave nenhuma O sistema imunitário destruiu as células que fabricam insulina. É preciso dá-la de fora, sempre. sem produção célula fechada · glicose acumula DIABETES TIPO 2 A fechadura está dura As células respondem mal. O pâncreas produz mais e mais até se esgotar, ao fim de anos. a forçar chaves a mais · fechadura dura Nos dois casos o resultado é o mesmo: glicose a mais no sangue, a passar por todos os vasos do corpo.
A diabetes tipo 1 e a tipo 2 são doenças diferentes com o mesmo resultado analítico. É por isso que o tratamento de uma não serve para a outra.

Não é uma doença — são várias

Chamamos "diabetes" a coisas bastante diferentes. A distinção não é um pormenor académico: muda tudo no tratamento.

Cerca de 5 a 10% dos casos

Tipo 1

O sistema imunitário destruiu, por engano, as células do pâncreas que fabricam insulina. Não há insulina nenhuma. Aparece mais em crianças, adolescentes e adultos jovens, muitas vezes de forma rápida e com sintomas evidentes. Precisa de insulina desde o primeiro dia e para sempre — não é uma escolha e não tem nada a ver com estilo de vida.

Cerca de 90% dos casos

Tipo 2

As células deixam de responder bem à insulina — chama-se resistência à insulina. O pâncreas compensa produzindo mais, durante anos, até se cansar. Instala-se devagar, sem sintomas, e por isso é a que fica tanto tempo por diagnosticar. Genética, idade, peso e sedentarismo pesam todos.

E ainda

  • Diabetes gestacional. Surge durante a gravidez e costuma desaparecer a seguir ao parto — mas deixa um risco aumentado de vir a ter diabetes tipo 2 mais tarde, o que justifica continuar a vigiar.
  • LADA. Uma diabetes tipo 1 de instalação lenta, no adulto. É frequentemente confundida com tipo 2 no início, e depois não responde como se esperava aos comprimidos.
  • MODY. Formas hereditárias raras, causadas por uma única alteração genética. Suspeita-se quando há vários familiares diagnosticados jovens e magros.
  • Diabetes secundária. Provocada por doença do pâncreas, por outras doenças hormonais ou por medicamentos — os corticoides são a causa mais comum.
Ser magro não exclui diabetes, e ser gordo não a garante. A associação ao peso é real na tipo 2, mas é estatística, não uma regra. Há pessoas magras com diabetes tipo 2 e pessoas com obesidade que nunca a desenvolvem.

Os números que interessam

O diagnóstico faz-se com análises ao sangue. Há quatro formas de o fazer, e qualquer uma delas serve.

Critérios de diagnóstico — ADA 2026
AnáliseNormalPré-diabetesDiabetes
Glicemia em jejum< 100100–125≥ 126 mg/dL
Prova da curva, às 2 horas< 140140–199≥ 200 mg/dL
HbA1c< 5,75,7–6,4≥ 6,5%
Glicemia a qualquer hora, com sintomas≥ 200 mg/dL
Um valor sozinho não chega. Salvo quando há sintomas claros e uma glicemia muito alta, o diagnóstico exige confirmação com uma segunda análise. Ninguém fica com diabetes por causa de uma manhã.

A HbA1c é a memória dos últimos três meses

A glicemia em jejum é uma fotografia: diz como estava o açúcar naquele minuto. Pode estar boa num dia mau e má num dia bom.

A HbA1c — hemoglobina glicada — é outra coisa. Mede a percentagem de glóbulos vermelhos que ficaram com glicose agarrada. Como os glóbulos vermelhos duram cerca de três meses, o valor resume a média desses três meses. Não se pode enganar com dois dias de dieta antes da consulta.

Para a maior parte dos adultos com diabetes, o alvo é uma HbA1c abaixo de 7%. Mas é um alvo, não um dogma: em pessoas mais velhas, frágeis, que vivem sozinhas ou que já tiveram hipoglicemias graves, o alvo é deliberadamente mais folgado — porque aí o perigo maior passa a ser o açúcar em baixo, não em cima.

O que diz a sua HbA1c

Escreva o valor da sua última análise para ver em que faixa cai e a que glicose média corresponde. Isto é a leitura de uma escala — não é um diagnóstico.

Leitor de HbA1c

Hemoglobina glicada
468101214HbA1c% 6,2 100150200250300350GLICOSE MÉDIAmg/dL 131 Normal Pré-diabetes Sugere diabetes
Leitura
Pré-diabetes
Ainda não é diabetes, e é a fase em que se pode fazer mais. Perder 5 a 7% do peso e andar a pé meia hora por dia reduz para cerca de metade o risco de vir a desenvolver diabetes. Fale com o seu médico.
Uma HbA1c de 6,2% corresponde a uma glicose média de cerca de 131 mg/dL ao longo dos últimos dois a três meses.
Critérios da ADA 2026. Isto é uma leitura de escala, não um diagnóstico nem uma indicação para alterar tratamento.

A conversão para glicose média usa a fórmula internacional padrão. É uma estimativa: duas pessoas com a mesma HbA1c podem ter dias muito diferentes.

A diabetes em Portugal

Portugal tem uma das prevalências mais altas da Europa, e o número não pára de subir: de 11,7% em 2009 para 14,2% em 2024 — cerca de 1,2 milhões de pessoas.

Em cada 100 adultos em Portugal 14 têm diabetes — e quase metade desses ainda não sabe. Diabetes diagnosticada · 8 Diabetes por diagnosticar · 6 Pré-diabetes · 29 Sem alteração · 57
Dados de 2024 do Observatório Nacional da Diabetes. Somando diabetes e pré-diabetes, 43% dos adultos portugueses têm o açúcar no sangue acima do normal.

Os números que mais dizem sobre o estado das coisas não são os da prevalência, são estes:

  • 43,7% dos casos estão por diagnosticar. São pessoas que já têm a doença a fazer estragos e ainda não sabem.
  • 28,8% dos adultos têm pré-diabetes. Somando tudo, quase metade da população adulta portuguesa tem o açúcar acima do normal.
  • 2 254 amputações em 2024 por causa do pé diabético — 1 116 delas major, acima do tornozelo. A maioria seria evitável.
  • Cerca de 1 em cada 4 pessoas em diálise chegou lá pela diabetes.
  • Mais de um quarto das pessoas entre os 60 e os 79 anos tem diabetes.
Quando é que vale a pena pedir a análise? Se tem mais de 45 anos, excesso de peso, familiares diretos com diabetes, pressão alta, colesterol alterado, teve diabetes na gravidez ou é de uma família em que a doença aparece cedo — peça a glicemia em jejum ou a HbA1c na próxima ida ao médico. É uma picada.

Os sinais — e a ausência deles

Na diabetes tipo 1 os sintomas aparecem depressa, em semanas, e são difíceis de ignorar. Na tipo 2 podem demorar anos a aparecer, e muita gente é diagnosticada numa análise de rotina, ou já com uma complicação instalada.

O que se sente quando o açúcar está muito alto

Urinar muito, sobretudo à noite · sede que não passa · boca seca · perder peso sem estar a tentar · cansaço fora do normal · visão turva · feridas que demoram a sarar · infeções urinárias ou candidíases repetidas · comichão.

Porque é que urinar muito e ter sede andam juntos

Quando há açúcar a mais no sangue, o rim tenta deitá-lo fora pela urina — e o açúcar arrasta água consigo. Perde-se líquido, dá sede, bebe-se mais, urina-se mais. É o mesmo mecanismo que alguns medicamentos usam de propósito.

Numa criança ou jovem, isto é urgente. Sede intensa, urinar muito (incluindo voltar a fazer chichi na cama), emagrecer depressa e cansaço marcado podem ser uma diabetes tipo 1 a instalar-se. Não espere pela consulta marcada — procure atendimento no próprio dia. Sem insulina, evolui para cetoacidose em dias.

O que a glicose vai fazendo ao corpo

A glicose a mais não dói. O que faz é desgastar, ano após ano, a parede dos vasos por onde passa — e os órgãos que dependem de vasos muito finos são os primeiros a sofrer.

Glicose alta durante anos Olhos Retinopatia — a principal causa de cegueira evitável Rins Filtram cada vez pior — 1 em 4 doentes em diálise Nervos Formigueiro e dormência nos pés e nas mãos Coração e artérias Enfarte e AVC — o dobro a quatro vezes mais risco Pés Feridas que não doem nem saram — a via para a amputação Nada disto avisa no início. Todos se rastreiam antes de dar sintomas.
A glicose a mais não dói — desgasta. Ataca primeiro os vasos mais pequenos, e por isso os olhos, os rins e os nervos costumam ser os primeiros a dar sinal nas análises.

É por isto que se trata uma doença que não se sente: não para deixar de sentir alguma coisa, mas para que daqui a quinze anos continue a não sentir.

A boa notícia é que quase tudo isto é evitável. Controlo da glicose, da tensão e do colesterol, não fumar, e ir aos rastreios. As complicações que ainda acontecem em Portugal acontecem sobretudo a quem foi diagnosticado tarde ou deixou de ser seguido.

O que muda sem medicamentos

Na diabetes tipo 2, isto não é o conselho simpático que se dá antes de passar a receita — é a parte com maior efeito de todas, e a única que atua na causa em vez de atuar no número.

Peso

Perder 5 a 10% do peso melhora significativamente o controlo, mesmo que fique longe do peso ideal. Não é preciso chegar a lado nenhum para começar a ganhar.

Movimento

150 minutos por semana de atividade moderada. O músculo consome glicose sem precisar de insulina — é a única coisa no corpo que faz isso. Uma caminhada depois do almoço baixa mesmo o pico daquela refeição.

Prato

Não existe alimento proibido. O que conta é a quantidade de hidratos, o tipo, e o que os acompanha: fibra, proteína e gordura boa travam a subida do açúcar. Metade do prato de legumes resolve mais do que qualquer lista de proibições.

Sono e tabaco

Dormir mal piora a resistência à insulina. E fumar, além do resto, acelera a lesão dos vasos que a diabetes já está a fazer — os dois juntos multiplicam o risco de enfarte, de doença renal e de amputação.

Remissão é possível — em alguns casos. Numa diabetes tipo 2 diagnosticada há pouco tempo, uma perda de peso substancial pode normalizar a glicemia e permitir suspender a medicação. Chama-se remissão, não cura: a tendência continua lá, o seguimento mantém-se, e a decisão de parar medicamentos é sempre médica.

O que os medicamentos estão a fazer

Nos últimos quinze anos apareceram famílias novas que mudaram completamente o tratamento da diabetes tipo 2. Deixou de ser só "baixar o açúcar" — há hoje medicamentos que reduzem também enfartes, internamentos por insuficiência cardíaca e progressão para diálise.

Há cinco sítios onde se pode baixar o açúcar. Cada família ataca um deles. 1 · FÍGADO Trava a fábrica de açúcar Metformina 2 · PÂNCREAS Liberta mais insulina Sulfonilureias · Glinidas 3 · INTESTINO E APETITE Hormonas que travam a fome GLP-1 · Gliptinas 4 · RIM Deita o açúcar fora na urina Gliflozinas (SGLT2) 5 · MÚSCULO E GORDURA Faz as células responderem Pioglitazona A glicose no sangue desce e mantém-se em baixo enquanto o tratamento for cumprido Olhos · rins · nervos · pés · coração poupados — o motivo real de se tomar o medicamento A insulina é um caso à parte: não empurra o corpo a nada — substitui o que falta.
Famílias diferentes atacam pontos diferentes. É por isso que se combinam — e por isso que a escolha depende tanto do resto da sua saúde como do valor da análise.

As famílias, uma a uma

Medicamentos para a diabetes tipo 2
FamíliaO que fazPesoBaixa o açúcar de mais?O que pode sentir
Metformina
o mais antigo e ainda o mais usado
Trava a produção de açúcar pelo fígado e ajuda o corpo a responder melhor à insulina. NeutroNão Enjoos e diarreia nas primeiras semanas — melhoram tomando à refeição e subindo a dose devagar.
Gliflozinas
dapagliflozina, empagliflozina
Fazem o rim deitar fora o açúcar a mais pela urina. Perde 2–4 kgNão Urinar mais; infeções genitais por fungos (higiene e boa hidratação ajudam muito).
GLP-1
semaglutido, dulaglutido, liraglutido
Imitam uma hormona do intestino: libertam insulina só quando é preciso, travam o fígado e tiram a fome. Perde bastanteNão Náuseas, obstipação ou diarreia no início e a cada subida de dose. Costumam passar.
Tirzepatido
age em duas hormonas em vez de uma
O mesmo, mas com dois efeitos combinados. É o que mais baixa a HbA1c e o peso. Perde muitoNão Igual aos GLP-1 — sintomas digestivos, sobretudo a subir a dose.
Gliptinas
sitagliptina, linagliptina
Deixam durar mais tempo as hormonas do intestino que o corpo já produz. NeutroNão Muito bem toleradas. Efeito modesto no açúcar.
Sulfonilureias
gliclazida, glimepirida
Obrigam o pâncreas a libertar insulina, independentemente do açúcar estar alto ou não. AumentaSim Hipoglicemias, sobretudo se saltar refeições. Baratas e eficazes, mas exigem cuidado.
Pioglitazona Faz o músculo e a gordura responderem melhor à insulina. AumentaNão Inchaço nas pernas. Não se usa em quem tem insuficiência cardíaca.
Acarbose Atrasa a digestão dos açúcares no intestino. NeutroNão Gases e distensão abdominal — o motivo pelo qual pouca gente a mantém.
Finerenona
não é para o açúcar
Protege o rim e o coração na doença renal associada à diabetes. NeutroNão Exige análises ao potássio antes e durante o tratamento.
Os nomes acima são exemplos, não sugestões. Não existe "o melhor medicamento para a diabetes" — existe o melhor para si, que depende dos seus rins, do seu coração, do seu peso, da sua idade e do resto do que já toma.

Porque é que lhe deram este e ao vizinho outro

Esta é das perguntas mais frequentes ao balcão da farmácia. A resposta é que, hoje, a escolha já quase não depende do valor da análise — depende do resto da sua saúde.

O que costuma pesar na escolha
Se além da diabetes tem……costuma preferir-sePorquê
Doença de coração, ou já teve um enfarte Gliflozinas ou GLP-1 Provaram, em estudos grandes, reduzir enfartes e AVC — para além de baixarem o açúcar.
Insuficiência cardíaca Gliflozinas Reduzem internamentos por descompensação. Aqui a pioglitazona está fora de questão.
Doença renal Gliflozinas, semaglutido, finerenona Atrasam a perda de função do rim e adiam a diálise.
Excesso de peso importante GLP-1 ou tirzepatido São os que fazem perder mais peso — e na tipo 2 o peso é parte da causa.
Idade avançada, fragilidade, viver sozinho Evitar sulfonilureias e insulina em excesso Aqui uma hipoglicemia grave é mais perigosa do que uma HbA1c um pouco acima.
Dificuldade em suportar o custo Metformina, sulfonilureias São muito baratas. Um medicamento excelente que não se compra não trata ninguém — diga-o na consulta.

É também por isto que a maioria das pessoas acaba com mais do que um medicamento. Não é sinal de que está pior: é a lógica de atacar pontos diferentes ao mesmo tempo, com doses mais baixas de cada um e menos efeitos indesejados.

Insulina

Na diabetes tipo 1, a insulina é vital desde o diagnóstico. Na tipo 2, entra quando os comprimidos deixam de chegar — e isso acontece a muita gente, porque a doença evolui.

Começar insulina não é um castigo nem um fracasso. É a evolução natural de uma doença em que o pâncreas se vai cansando. Muita gente adia isto durante anos por medo ou por vergonha — e passa esses anos com o açúcar alto a fazer o dano que a insulina teria evitado.

Os tipos, em linguagem simples

  • Basal. Uma injeção por dia (às vezes duas), que cobre o fundo — as horas entre refeições e a noite. Há já insulinas semanais, com uma única injeção por semana.
  • Rápida ou ultrarrápida. Tomada às refeições, para dar conta do que se vai comer. Age em 10 a 20 minutos.
  • Pré-misturas. As duas no mesmo dispositivo. Menos flexíveis, mas menos injeções.

O que evita a maior parte dos problemas

  • Rode os locais de injeção. Injetar sempre no mesmo sítio cria caroços de gordura — e nesses caroços a insulina absorve-se mal e de forma imprevisível. É uma das causas mais comuns de glicemias que "não fazem sentido".
  • Guarde as canetas fechadas no frigorífico, nunca no congelador. A que está em uso pode ficar à temperatura ambiente cerca de um mês — e é melhor assim, porque injetar insulina fria dói mais.
  • Calor estraga insulina. Não a deixe no carro nem na praia. Se ficou turva quando devia ser transparente, ou com grumos, não use.
  • Agulha nova em cada injeção. Reutilizar dobra a ponta e magoa mais.
  • Confirme sempre a caneta. Trocar a rápida pela basal, ou uma insulina semanal por uma diária, causa hipoglicemias graves. Se usa duas, distinga-as fisicamente.

Hipoglicemia: o açúcar em baixo

É o efeito secundário mais temido, e com razão. Acontece sobretudo a quem toma insulina ou sulfonilureias — as outras famílias praticamente não a causam sozinhas.

Como se sente

Tremores · suores frios · coração acelerado · fome súbita · irritabilidade sem motivo · dificuldade em pensar ou em encontrar palavras · visão turva · palidez. Abaixo de 54 mg/dL pode haver confusão franca.

O que a desencadeia

Saltar ou atrasar uma refeição · comer menos do que o habitual · exercício sem ajustar · álcool (sobretudo em jejum, e pode dar hipoglicemia horas depois) · dose a mais · e, com o tempo, deixar de sentir os avisos.

A regra dos 15

  1. Meça, se puder. Abaixo de 70 mg/dL é hipoglicemia.
  2. Tome 15 gramas de açúcar de absorção rápida. Meio copo de sumo ou de refrigerante normal (não light), três pacotes de açúcar, ou pastilhas de glicose. Não chocolate — a gordura atrasa a absorção.
  3. Espere 15 minutos. É o passo que toda a gente falha: comer mais e mais porque não passa logo acaba em glicemias muito altas a seguir.
  4. Volte a medir. Se continuar abaixo de 70, repita os 15 gramas.
  5. Depois de recuperar, se a refeição seguinte estiver longe, coma algo com hidratos de absorção lenta — pão, bolacha — para não voltar a cair.

Se a pessoa estiver inconsciente ou não conseguir engolir em segurança:

  • Nunca dê nada pela boca — risco de asfixia.
  • Administre glucagom, se houver. Existe em caneta pré-cheia e em pó nasal, ambos fáceis de usar sem treino médico.
  • Ligue 112.

Se toma insulina, tenha glucagom em casa e ensine a família a usá-lo — quem precisa dele nunca está em condições de o administrar a si próprio.

Se tem hipoglicemias com frequência, ou deixou de sentir os avisos, isso não é algo a suportar — é informação clínica importante. Diga na consulta: quase sempre obriga a rever doses ou a mudar de esquema.

Os cuidados que ninguém lhe costuma explicar

Cada família tem uma ou duas situações em que se torna perigosa. Não são frequentes, mas são exatamente as que vale a pena saber de cor.

Gliflozinas — pode haver cetoacidose com o açúcar quase normal.

É a única situação em que uma glicemia tranquilizadora não tranquiliza. Se estiver a tomar uma gliflozina e tiver náuseas ou vómitos, dor de barriga, respiração ofegante, sede intensa, hálito adocicado ou confusão — mesmo com a glicemia normal — procure atendimento urgente e diga que toma este medicamento.

Dias de doença — a regra que evita a maior parte dos internamentos.

Se ficar com vómitos, diarreia, febre alta, ou deixar de conseguer comer e beber normalmente, suspenda temporariamente as gliflozinas e a metformina e contacte o seu médico ou o SNS 24. Estes medicamentos são seguros com o corpo hidratado e perigosos com o corpo desidratado. A insulina nunca se suspende — na doença pode até ser precisa mais, e é aí que muita gente se engana.

Exames com contraste e cirurgias

Vai fazer TAC com contraste, cateterismo ou uma cirurgia? Diga sempre que toma metformina — costuma suspender-se e só se retoma dias depois, com a função renal reavaliada.

GLP-1 antes de anestesia ou endoscopia

Estes fármacos atrasam o esvaziamento do estômago, o que aumenta o risco de aspiração sob anestesia. Avise o anestesista e o gastrenterologista — pode ser preciso jejum mais longo ou dieta líquida na véspera.

Metformina e a vitamina B12

Ao fim de anos, a metformina pode baixar a vitamina B12 e causar formigueiro nos pés que se confunde com neuropatia diabética. É um doseamento simples e a correção é fácil — peça-o se tiver esses sintomas.

Gravidez, ou querer engravidar

A maioria destes medicamentos não se usa na gravidez — passa-se para insulina, e por vezes metformina. Planeie antes: as primeiras semanas são as mais importantes e muitas vezes decorrem antes de se saber.

Infeções genitais com gliflozinas

São comuns e tratam-se bem. Mas dor intensa, inchaço e vermelhidão na zona genital ou entre as pernas, com febre e mal-estar, é uma emergência cirúrgica rara — vá às urgências no mesmo dia.

Álcool

Bloqueia a capacidade do fígado de repor açúcar. Em quem toma insulina ou sulfonilureias, pode provocar hipoglicemia várias horas depois — muitas vezes durante a noite. Nunca beba em jejum e coma sempre alguma coisa.

Corticoides sobem o açúcar — bastante. Se lhe prescreverem prednisolona ou similar, mesmo por poucos dias, conte que a glicemia vá subir e pergunte se deve vigiar mais de perto nesse período.

Medir: picadas ou sensor

Durante décadas houve só a picada no dedo. Hoje há sensores que medem sozinhos, de cinco em cinco minutos, e mostram no telemóvel não só o valor como para onde vai.

Como deve ser repartido um dia inteiro Alvos de tempo no intervalo, em mg/dL — para quem usa sensor contínuo mais de 70% do dia 54 70 180 250 Entre 70 e 180 mg/dL — o intervalo bom mais de 70% do dia Abaixo de 70 — e menos de 1% abaixo de 54 menos de 4% Entre 181 e 250 menos de 25% Acima de 250 menos de 5% A largura de cada faixa é a proporção do dia que deve ocupar.
Dois valores de HbA1c iguais podem esconder dias completamente diferentes: um estável, outro aos altos e baixos. É isso que o sensor mostra e a análise não.

Esta é a diferença que interessa: a HbA1c dá-lhe uma média de três meses, mas duas pessoas com 7,0% podem ter vidas muito diferentes — uma estável, outra a alternar entre 50 e 300. O sensor mostra isso; a análise não.

Em Portugal os sensores são comparticipados — até 85% pelo Estado — mas desde agosto de 2025 só podem ser prescritos por algumas especialidades, incluindo medicina geral e familiar. Se acha que beneficiaria de um, é uma conversa a ter com o seu médico de família.

O calendário que não pode falhar

Se houver uma única coisa a levar desta página, é esta lista. As complicações da diabetes apanham-se cedo em pessoas sem sintoma nenhum — e apanhadas cedo, tratam-se.

Rastreio de complicações
O quêCom que frequênciaPorquê
HbA1c2 a 4 vezes por ano Diz como correram os últimos três meses e se o tratamento chega.
Fundo do olho Anual · na tipo 2 logo ao diagnóstico, na tipo 1 ao fim de 5 anos A retinopatia não dá sintomas até ser tarde. Tratada a tempo, evita-se a cegueira.
Rins
albumina na urina + creatinina no sangue
Anual A albumina na urina é o primeiro sinal, muito antes de qualquer sintoma.
PésAnual — mais vezes se já houve problemas Procura perda de sensibilidade e má circulação, os dois ingredientes da úlcera.
Tensão arterialEm todas as consultas Tensão alta e diabetes juntas danificam o rim muito mais depressa do que qualquer uma sozinha.
ColesterolAnual O risco cardiovascular na diabetes é alto mesmo com valores que seriam aceitáveis noutra pessoa.
FígadoAvaliação de risco periódica A esteatose hepática é muito comum na diabetes tipo 2 e pode evoluir em silêncio.
Dentes e gengivasAnual A doença das gengivas é mais frequente na diabetes — e piora o controlo do açúcar.
VacinasGripe todos os anos; pneumocócica conforme indicação As infeções descompensam a diabetes e são mais graves nestes doentes.
Em Portugal existe rastreio nacional da retinopatia diabética — mas em 2024 mais de metade das pessoas elegíveis nem sequer chegou a ser convidada. Se já não se lembra da última vez que fez o exame ao fundo do olho, pergunte no seu centro de saúde.

Os pés merecem um capítulo só para eles

Em 2024 fizeram-se em Portugal 2 254 amputações associadas ao pé diabético. Quase todas começaram da mesma forma: uma ferida pequena que não doeu.

É essa a armadilha. A diabetes danifica os nervos dos pés, e o que se perde primeiro é a dor — o sistema de alarme. Uma pedra no sapato, uma bolha, um calo mal cortado passam despercebidos, infetam, e quando dão sinal já há tecido perdido.

  • Olhe para os pés todos os dias. Incluindo entre os dedos e a planta — com um espelho no chão se for preciso, ou peça a alguém.
  • Nunca ande descalço, nem dentro de casa, nem na praia.
  • Sacuda os sapatos antes de calçar. Uma pedra que não sente pode fazer uma úlcera num dia.
  • Água morna, nunca quente — teste com o cotovelo, não com o pé. Seque bem entre os dedos.
  • Hidrate a planta e o dorso, mas não entre os dedos.
  • Corte as unhas a direito, sem cavar os cantos. Calos e calosidades são para o podologista, nunca para lâminas ou calicidas.
  • Qualquer ferida, bolha, mancha escura ou unha encravada é motivo para ser visto por um profissional esta semana — não no mês que vem.

Quando é urgente

Ligue 112 ou vá às urgências se aparecer:

  • Vómitos persistentes com dor de barriga e respiração rápida e profunda
  • Hálito com cheiro adocicado, a fruta
  • Confusão, sonolência anormal ou perda de consciência
  • Hipoglicemia que não sobe com açúcar, ou pessoa que não consegue engolir
  • Sede extrema com muita urina e desidratação marcada
  • Sinais de AVC — boca ao lado, braço sem força, fala arrastada
  • Dor no peito ou falta de ar súbita
  • Ferida no pé com pus, cheiro, mancha escura ou febre

Para o que é urgente mas não é emergência — glicemias muito altas vários dias seguidos, hipoglicemias repetidas, uma ferida que não fecha — contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou a sua equipa de saúde no próprio dia.

Mitos que vale a pena desfazer

O que se dizO que se sabe
"Comer muito açúcar dá diabetes." O açúcar não causa diretamente a tipo 2. O que causa é o conjunto: excesso de calorias, peso a mais, sedentarismo e genética. E não tem qualquer relação com a tipo 1.
"Tenho só um bocadinho de diabetes." Não existe diabetes ligeira. Existe diabetes bem controlada e mal controlada — e o dano começa muito antes de haver sintomas.
"Os diabéticos não podem comer fruta." Podem e devem. A fruta traz fibra, que trava a subida do açúcar. O que conta é a quantidade e comê-la inteira em vez de em sumo.
"Produtos para diabéticos são melhores." Costumam ser caros, ter tantas calorias como os normais e alguns adoçantes dão diarreia. Comida normal em quantidade adequada é melhor.
"A insulina é o fim da linha." É apenas mais um tratamento, e o mais eficaz que existe. Muita gente melhora tanto que recupera qualidade de vida que julgava perdida.
"Sinto-me bem, portanto está controlada." Sentir-se bem com glicemias de 250 é comum — o corpo habitua-se. É por isso que se mede em vez de se avaliar pela sensação.
"A diabetes tipo 2 é culpa de quem a tem." A genética pesa tanto ou mais do que o estilo de vida. A culpa não trata ninguém e afasta as pessoas do seguimento.

Perguntas frequentes

Posso comer doces alguma vez?

Sim, com planeamento. Não há alimentos proibidos — há quantidades e contextos. Um doce no fim de uma refeição completa sobe menos o açúcar do que o mesmo doce sozinho a meio da tarde. Se toma insulina às refeições, é uma questão de contar os hidratos. O que não funciona é a proibição total: leva a desistir de tudo à primeira falha.

A diabetes tem cura?

A tipo 1 não — hoje não há forma de recuperar as células destruídas, embora seja das áreas mais ativas de investigação. A tipo 2 pode entrar em remissão: com perda de peso substancial, sobretudo nos primeiros anos após o diagnóstico, a glicemia pode normalizar e a medicação ser suspensa. Remissão não é cura — a tendência mantém-se e o seguimento também.

Vou ter de tomar isto para o resto da vida?

Na maioria dos casos de tipo 2, sim, porque a doença é progressiva. Mas o esquema muda ao longo dos anos — às vezes reduz-se, às vezes simplifica-se, e em quem perde bastante peso pode chegar a suspender-se. Essa decisão faz-se com análises, nunca por sensação.

Posso conduzir?

Sim. Se toma insulina ou sulfonilureias, meça antes de viagens longas, leve sempre açúcar de absorção rápida ao alcance da mão, e nunca conduza com a glicemia abaixo de 90 mg/dL sem corrigir primeiro e esperar. Se sentir uma hipoglicemia a instalar-se, encoste, desligue o motor e corrija antes de retomar. Há regras específicas para cartas profissionais — confirme com o seu médico.

E quando estou doente com gripe ou gastroenterite?

A doença sobe o açúcar mesmo comendo menos. Beba líquidos com frequência, meça a glicemia mais vezes do que o habitual, e não suspenda a insulina. As gliflozinas e a metformina, essas, suspendem-se temporariamente se não conseguir comer e beber normalmente. Na dúvida, ligue para o SNS 24.

Posso fazer exercício e desporto?

Deve — é parte do tratamento, e há atletas de alta competição com diabetes tipo 1. Se toma insulina ou sulfonilureias, meça antes e depois, e leve açúcar consigo: o efeito do exercício pode prolongar-se por horas e provocar hipoglicemia à noite. Se tem retinopatia avançada, evite esforços de levantamento de grandes pesos sem falar antes com o médico.

Os meus filhos vão ter diabetes?

Herda-se uma predisposição, não a doença. Na tipo 2 essa predisposição é forte — mas é também das que mais se consegue contrariar com peso, alimentação e movimento. Ter um pai ou mãe com diabetes tipo 2 é uma boa razão para os filhos fazerem a análise mais cedo e mais vezes.

Onde posso obter apoio em Portugal?

A APDP — Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal tem uma linha de apoio clínico (213 816 161, dias úteis) atendida por profissionais de saúde, além de consultas e educação terapêutica. Para dúvidas gerais de saúde, SNS 24 — 808 24 24 24. E o seu farmacêutico está ali ao balcão, sem marcação, para tudo o que tenha a ver com os medicamentos.

Fontes

  • American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes — 2026. Diabetes Care 2026;49(Supl. 1). Critérios de diagnóstico, alvos de HbA1c e de glicemia, definição de hipoglicemia e periodicidade dos rastreios.
  • Battelino T. et al. Clinical targets for continuous glucose monitoring data interpretation: recommendations from the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care 2019.
  • Observatório Nacional da Diabetes / Sociedade Portuguesa de Diabetologia. Diabetes: Factos e Números — Relatório Anual 2022-2024 (11.ª edição). Prevalência, pré-diabetes, amputações e diálise em Portugal.
  • Direção-Geral da Saúde. Relatório do Programa Nacional para a Diabetes 2025; Orientação n.º 005/2025 — Prevenção, Diagnóstico e Tratamento da Pessoa com Pé Diabético; Norma n.º 016/2018 — Rastreio da Retinopatia Diabética.
  • European Medicines Agency. Resumos das Características do Medicamento e comunicações de segurança das classes referidas, incluindo o alerta de cetoacidose com inibidores SGLT2 e as advertências de classe dos agonistas GLP-1.
  • INFARMED. Relatório de avaliação de financiamento público do semaglutido, fevereiro de 2026.
  • Soares MA. Terapêutica da Diabetes — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; os valores clínicos foram integralmente atualizados.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ADA Standards of Care in Diabetes 2026, DGS (Orientação n.º 005/2025, Norma n.º 016/2018).