Asma e DPOC
Asma é uma inflamação dos brônquios que aparece em crises — aperta e depois alarga. DPOC significa Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica: os pulmões ficaram com lesões duradouras e o ar tem dificuldade em sair. Partilham falta de ar, pieira e o inalador — e por isso confundem-se. Mas são doenças diferentes, com idades diferentes e tratamentos diferentes. Quando se percebe o que cada uma é, percebe-se porque é que as regras não se podem trocar.
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O que são, em palavras simples
As duas estreitam os brônquios — os tubos que levam o ar aos pulmões. A diferença está em como estreitam e quando.
Asma — “os brônquios que apertam em crise”
O que é: os canos que levam o ar (brônquios) estão inflamados e muito sensíveis. Incham por dentro, fazem muco e o músculo à volta contrai — o cano aperta. Isto vai e vem: há dias sem nada e crises em minutos. Por ser uma inflamação de tipo alérgico, responde muito bem a corticoide inalado — o “corticoide” aqui é anti-inflamatório que fica nos pulmões, não é o corticoide dos comprimidos. Começa em qualquer idade, mas muitas vezes na infância ou adolescência. Entre crises, o pulmão pode estar normal.
Palavra do médico: tipo 2 / eosinofílica = inflamação alérgica. ICS = corticoide inalado.
DPOC — Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica
O que quer dizer cada palavra: Doença dos Pulmões onde os canos ficam Obstruídos (apertados/com muco) de forma Crónica (duradoura). Os brônquios e os sacos de ar (alvéolos) ficaram lesados de forma fixa — o ar entra mas não sai todo, fica preso. Junta duas coisas: bronquite crónica (tosse com expetoração quase todos os dias) e enfisema (os sacos de ar estragados, como balões furados). Aparece depois dos 40 anos, quase sempre em quem fumou ou respirou fumo, pó ou fumo de lareira durante muitos anos. Esta inflamação responde pouco a corticoide isolado.
A ideia decisiva, em linguagem simples: na asma trata-se a inflamação de fundo — por isso toda a gente com asma precisa de corticoide inalado, nunca só o inalador azul de alívio rápido (GINA 2025). Na DPOC trata-se primeiro o aperto e a falta de ar com broncodilatadores que mantêm o cano aberto o dia todo — só se junta corticoide a quem tem muitos eosinófilos no sangue e faz crises frequentes.
Como se distinguem — e quando coexistem
Na prática confundem-se porque as queixas são parecidas. A história, a espirometria e a resposta ao tratamento separam a maioria dos casos. Uma minoria tem características das duas — o chamado overlap.
| Sinal | Asma | DPOC |
|---|---|---|
| Idade de início | Qualquer, muitas vezes infância/jovem adulto | Depois dos 40 anos |
| História | Alergias, rinite, eczema, família com asma | Tabaco (≥10–20 UMA), biomassa, pó profissional |
| Padrão | Variável: bem num dia, em crise no seguinte; pior à noite e de madrugada, com constipação, pólen, frio, exercício, riso | Persistente e progressivo: falta de ar ao esforço, todos os dias, com tosse produtiva crónica |
| Reversibilidade | Sim — FEV₁ sobe ≥12% e ≥200 mL após broncodilatador; varia semana a semana | Limitada — FEV₁/FVC <0,70 mantém-se após broncodilatador |
| Inflamação | Tipo 2 / eosinofílica (FeNO elevado, BEC pode subir) | Neutrofílica; eosinófilos no sangue só contam para decidir ICS |
| Entre crises | Pode estar assintomático e com espirometria normal | Sintomas residuais; espirometria sempre obstrutiva |
| Exacerbação | Desencadeada por vírus, alergénios, fumo | Vírus, bactérias, poluição; recuperação mais lenta |
Os números que interessam — sem siglas misteriosas
O diagnóstico faz-se com a prova do sopro (espirometria) — sopra com força para uma máquina que mede o ar. Nenhum questionário, raio-X ou estetoscópio substitui esse registo. As siglas assustam, mas a ideia é simples:
| O que o médico pediu | Para si, o que quer dizer | Quando preocupa / o que significa |
|---|---|---|
| Prova do sopro: rácio FEV₁/FVC quanto sai no 1.º segundo ÷ total | Os canos estão apertados? Se demorar a deitar o ar fora, o rácio baixa. | <0,70 depois do inalador de alívio = canos obstruídos. Na DPOC fica sempre baixo; na asma só baixa na crise e normaliza depois. |
| Prova de reversibilidade sopro antes e depois de 2–4 puffs de salbutamol | O aperto abre com o inalador? Mede se o pulmão melhora logo. | Melhora ≥12% e ≥200 mL = o pulmão abre — apoia asma. Na DPOC mexe pouco. |
| FEV₁ % do previsto compara consigo: idade, sexo, altura | Quão aberto está o pulmão comparado com o esperado para si? | ≥80% ligeiro · 50–79% moderado · 30–49% grave · <30% muito grave (GOLD 1–4) |
| BEC — eosinófilos no sangue análise ao sangue, sem jejum | Tem muita inflamação alérgica a circular? Ajuda o médico a decidir se o corticoide inalado vai ajudar na DPOC. | ≥300 favorece juntar corticoide · <100 desaconselha · 100–299 zona cinzenta |
| FeNO — sopro de óxido nítrico sopra devagar para um aparelho | Há inflamação alérgica nos brônquios agora? | ≥25 apoia asma alérgica ativa |
| Peak Flow — pico de sopro aparelho de bolso em casa | Como anda o sopro dia a dia? | Variar >10% num dia apoia asma; <50% do seu melhor pessoal = crise grave — ligue 112 / vá à urgência |
Os questionários que contam — não é o médico que decide se está aflito, é você
Não dão o diagnóstico, mas medem o que a máquina não mede: como se sente no dia a dia. Responde você, em 2 minutos.
CAT — “Como anda a sua DPOC?”
Pergunta sobre tosse, expetoração, aperto no peito, falta de ar ao subir escadas, se consegue fazer as coisas em casa, confiança para sair, sono e energia. Cada pergunta 0 (nada) a 5 (muitíssimo). Some tudo: ≥10 = “muito sintomático” — no esquema do GOLD é grupo B ou E.
mMRC — “O que já não consegue fazer?”
0 só ao correr muito · 1 falta de ar ao apressar em plano · 2 tem de parar a cada 100 m · 3 falta de ar a vestir-se · 4 demasiado aflito para sair de casa. ≥2 também quer dizer “muito sintomático”.
ACT — “A asma está controlada?”
25 totalmente controlada · 20–24 bem controlada · ≤19 não controlada — é sinal para o médico ajustar o passo. Pergunta sobre sintomas de dia/noite, limitações e quantas vezes precisou do inalador de alívio.
ABE — o novo abecedário do GOLD (2023–2025)
Esqueça o FEV₁ para escolher o inalador. O GOLD usa só A, B e E: A = pouca falta de ar + poucas crises; B = muita falta de ar + poucas crises; E = exacerbador (≥2 crises que precisaram de antibiótico/corticoide ou 1 com ida ao hospital no último ano), seja qual for a falta de ar. É o E que decide se leva corticoide inalado e triple.
Faça aqui o seu CAT
O CAT (COPD Assessment Test) são 8 perguntas sobre o peso da doença pulmonar no seu dia a dia. Em cada linha escolha um número de 0 (nada) a 5 (muitíssimo). A pontuação soma-se sozinha — leva 2 minutos.
Questionário CAT
8 perguntas · 0–5 cada · 0–40 pontos-
01 · Tossede «não touso nada» a «toso sem parar»
-
02 · Catarro no peitode «não tenho catarro nenhum» a «tenho imenso catarro»
-
03 · Aperto no peitode «não sinto aperto nenhum» a «sinto um aperto muito forte»
-
04 · Subir uma ladeira ou escadas devagarde «não me falta o ar» a «falta-me muito o ar e tenho de parar»
-
05 · Atividades dentro de casade «não tenho limitação nenhuma» a «estou muito limitado(a)»
-
06 · Confiança para sair de casade «tenho toda a confiança, apesar do pulmão» a «não tenho confiança nenhuma»
-
07 · Sonode «durmo profundamente» a «não durmo por causa do meu problema pulmonar»
-
08 · Energiade «tenho energia para tudo» a «não tenho energia nenhuma»
Isto é uma leitura educativa, não um diagnóstico. Anote o total e leve-o à consulta ou à farmácia: é assim que o médico decide se está no grupo A, B ou E do GOLD.
Os sinais — e o que engana
As duas dão tosse, pieira (chiadeira), aperto no peito e falta de ar. O que as distingue é quando e com o quê.
O que costuma aparecer
- Crises: minutos a horas, com sibilos audíveis, tosse (sobretudo noturna e com riso/frio/exercício) e alívio rápido com broncodilatador.
- Entre crises pode não haver nada — e a pessoa adia a consulta por “já passou”.
- Desencadeantes claros: constipações, pólen, ácaros, pelo de animais, bolores, fumo, poluição, ar frio, emoções, exercício, anti-inflamatórios em alguns doentes.
O que costuma aparecer
- Falta de ar que entra devagar, ao longo de anos: primeiro a subir escadas, depois em plano.
- Tosse produtiva crónica — “tosse de fumador” com expetoração quase todos os dias, mais ao levantar.
- Exacerbações no inverno: mais tosse, mais expetoração (amarela/esverdeada), mais falta de ar durante dias, com pior tolerância ao esforço.
O que obriga a reavaliação. Tosse com sangue, dor torácica persistente, perda de peso não explicada, rouquidão com mais de 3 semanas, ou diferença grande entre as queixas e a espirometria — não são “a DPOC a piorar”: merecem investigação de outra causa, incluindo neoplasia do pulmão.
Uma armadilha comum: quem se adapta mexe-se menos e deixa de ter falta de ar porque deixou de andar — a doença parece estável, mas o doente está a encolher a vida. É por isso que os questionários perguntam sobre escadas, compras e sono, não só sobre o ar.
O que vai acontecendo ao corpo
Tratar antes de haver grande falta de ar não é excesso de zelo — é que o pulmão não avisa a tempo.
O que a asma faz com os anos
Sem ICS, a inflamação mantém os brônquios “em carne viva”. As crises tornam-se mais frequentes, mais graves e com menos resposta ao salbutamol. A remodelação — parede mais grossa — pode tornar a obstrução menos reversível na idade adulta.
O que a DPOC faz com os anos
Queda de FEV₁ mais depressa do que o envelhecimento normal, hiperinsuflação, fraqueza muscular, ansiedade pela dispneia, osteoporose, anemia, depressão e doença cardiovascular. A caquexia (perda de músculo e gordura) é sinal de mau prognóstico.
Porque aparece — o que se pode mudar e o que não se pode
Fatores de risco
- Atopia: alergia a ácaros, pólenes, fungos, epitélios. Rinite alérgica, eczema e conjuntivite andam juntos.
- História familiar de asma ou atopia.
- Exposição profissional: farinhas, tintas, látex, isocianatos.
- Poluição, fumo passivo, vírus na infância, obesidade e refluxo agravam e podem desencadear.
Fatores de risco
- Tabaco — o mais importante, de longe. 80–90% dos casos.
- Fumo de biomassa (lareira, fogão a lenha), pó e fumos profissionais (minas, construção, agricultura).
- Poluição do ar e infeções respiratórias de repetição na infância.
- Déficit de alfa-1 antitripsina — forma genética rara, mas importa rastrear em DPOC antes dos 50 ou com enfisema predominante.
Os fatores que não se mudam (idade, genes, atopia) servem para perceber quem deve ser rastreado cedo. Os que se mudam servem para travar a história natural — e, na DPOC, são o tratamento mais eficaz que existe.
O que ajuda sem ser comprimido nem inalador
Sem isto, nenhum inalador chega.
Deixar de fumar — em ambas
Na DPOC é o que mais trava a queda do FEV₁. Na asma melhora o controlo e a resposta ao ICS. Parar aos 40 recupera metade do risco; parar em qualquer idade trava a progressão. Peça ajuda: combinação de apoio comportamental + substitutos de nicotina/vareniclina/bupropiom duplica a taxa de sucesso.
Gripe, pneumococo, COVID-19, VSR, zona
Gripe anual e antipneumocócica para toda a DPOC. COVID-19 atualizada. VSR e herpes-zóster recomendadas nos mais velhos/comorbilidades, segundo o PNV. Vacinas não “fazem mal aos pulmões”: evitam a exacerbação que faz.
O “fármaco” não farmacológico
Programa de 6–12 semanas com exercício supervisionado, treino de força, educação e apoio nutricional/psicológico. Melhora dispneia, distância caminhada, qualidade de vida e reduz hospitalizações — na DPOC é recomendação forte do GOLD para grupos B e E sintomáticos.
Autogestão
Plano de ação escrito: o que aumentar, quando tomar corticoide oral, quando ir à urgência. Na asma, plano com peak flow + aumento de ICS-formoterol evita ida à urgência; na DPOC, plano de exacerbação inicia antibiótico/corticoide mais cedo.
Medidas isoladas (capas antiácaros sozinhas) valem pouco. O que ajuda: controlo de bolor e humidade, evitar pelo de animal se alergia comprovada, não fumar dentro de casa, aspirar com filtro, lavar roupa de cama a quente. Na alergia grave, imunoterapia sublingual/subcutânea pode reduzir sintomas.
150 min/semana de marcha moderada mantêm músculo e reduzem dispneia. Na obesidade com asma, perder 5–10% do peso melhora sintomas e dose de ICS. Evite banhos de vapor, fumos de lareira sem extração e poluição nos dias de alerta.
Medicamentos da asma — os 5 passos do GINA 2025
O GINA 2025 mantém a revolução de 2019: todos os adultos e adolescentes com asma devem fazer ICS. Acabou o SABA (salbutamol/terbutalina) sozinho. O alívio passa a levar sempre corticoide junto — para tratar a inflamação no momento em que o brônquio aperta.
| Passo | Track 1 — preferido (AIR/MART) | Track 2 — alternativo | Quando subir ou descer |
|---|---|---|---|
| 1 sintomas <2×/mês |
ICS-formoterol em SOS (budesonida-formoterol 200/6) — sem manutenção diária | ICS em SOS sempre que usar SABA | Se precisar de alívio >2×/mês, passa a 2 |
| 2 | ICS-formoterol dose baixa em SOS; alternativa: MART dose baixa | ICS dose baixa diário + SABA SOS | Rever técnica/adesão antes; ACT ≤19 ou >2 exacerbações/ano = subir |
| 3 | MART dose baixa: budesonida-formoterol manutenção 1–2×/dia + SOS com o mesmo inalador | ICS-LABA dose baixa + SABA (ou ICS-SABA) | Se ≥1 exacerbação grave apesar de MART bem usado, subir |
| 4 | MART dose média | ICS-LABA dose média/alta + SABA; pode juntar LAMA | Avaliar fenótipo tipo 2 (BEC, FeNO, alergia) |
| 5 | MART dose alta + referenciar: considerar tiotrópio, biológico, termoplastia em casos selecionados | Alta ± LAMA ± azitromicina/bioló gico conforme fenótipo | Não subir ICS além da dose alta sem avaliar biológico |
As famílias da asma, uma a uma
| Família | O que faz | Exemplos | O que pode sentir |
|---|---|---|---|
| ICS — corticoide inalado | Desinflama a parede; trata a causa | budesonida, beclometasona, fluticasona | Rouquidão, candidíase oral — previne-se com bochecho e câmara |
| LABA — broncodilatador longa duração | Relaxa o músculo 12 h; nunca isolado na asma | formoterol (rápido), salmeterol, vilanterol | Tremor, palpitações no início |
| LAMA | Broncodilatador anticolinérgico; acrescenta-se nos passos 4–5 | tiotrópio, glicopirrónio, umeclidínio | Boca seca, sabor amargo |
| ICS-formoterol (AIR/MART) | Um inalador para tudo: manutenção + alívio anti-inflamatório | budesonida-formoterol, beclometasona-formoterol | O de cima, combinados |
| SABA / ICS-SABA | Alívio rápido; GINA Track 2 usa ICS sempre que SABA | salbutamol, terbutalina; salbutamol-beclometasona (2025) | Tremor, nervosismo |
| LTRA | Alternativa se ICS não for possível | montelucaste (comprimido) | Alterações de humor/sonhos — avise se notar |
| Biológicos (passo 5) | Anticorpos para asma grave tipo 2 | omalizumab (IgE), mepolizumab/benralizumab (IL-5), dupilumab (IL-4/13), tezepelumab (TSLP) | Injetáveis; reduzem exacerbações e corticoide oral |
Medicamentos da DPOC — o esquema ABE do GOLD 2025
O GOLD simplificou: só três letras — A, B e E. Não é a percentagem do sopro que escolhe o inalador, é como se sente (CAT ou mMRC — ver acima) e quantas crises teve no último ano. Exacerbação é a palavra médica para “crise que precisou de antibiótico, corticoide em comprimido ou ida ao hospital”.
| Grupo | Como se caracteriza | Início (GOLD 2025) | Se continuar a exacerbar |
|---|---|---|---|
| A | pouco sintomático, não exacerbador | Um broncodilatador (LABA ou LAMA) | Se piorar, passa a LABA+LAMA |
| B | muito sintomático, não exacerbador | LABA + LAMA | Sem ICS (BEC não decide aqui) |
| E · BEC <100 | exacerbador | LABA + LAMA (sem ICS) | Se nova exacerbação, manter LABA+LAMA; ponderar roflumilaste/azitromicina se bronquite crónica |
| E · BEC 100–299 | exacerbador | LABA + LAMA | Se exacerba sob LABA+LAMA, escalar para triple LABA+LAMA+ICS |
| E · BEC ≥300 | exacerbador | Triple LABA+LAMA+ICS de início | Se ainda exacerba com triple + bronquite crónica → dupilumab (BEC ≥300) nos países com acesso |
O que há de novo que vale a pena conhecer
Ensifentrina — inalador PDE3/PDE4
Primeiro inalador com dupla inibição fosfodiesterase 3 e 4, via nebulização. Broncodilata e reduz inflamação sem ser corticoide nem anticolinérgico. GOLD 2025 já o inclui como opção em DPOC sintomática apesar de LABA+LAMA, sobretudo quando ICS não é indicado.
Dupilumab — biológico para DPOC
Anti-IL-4/IL-13. Indicado na DPOC com bronquite crónica + BEC ≥300 + já em triple LABA+LAMA+ICS e ainda a exacerbar. Reduz exacerbações e melhora FEV₁ e qualidade de vida. Exige prescrição especializada.
| Família | O que faz | Exemplos | Notas |
|---|---|---|---|
| SABA / SAMA curta duração | Alívio rápido; base do kit de exacerbação | salbutamol, ipratrópio | Não são manutenção; uso >3×/semana indica mau controlo |
| LABA | Relaxa 12–24 h | formoterol, salmeterol, indacaterol, olodaterol, vilanterol | Tremor, taquicardia ligeira |
| LAMA | Relaxa 24 h, seca secreções | tiotrópio, glicopirrónio, umeclidínio, aclidínio | Boca seca, retenção urinária em idosos |
| LABA+LAMA | Duplo broncodilatador num inalador | vilanterol+umeclidínio, indacaterol+glicopirrónio, olodaterol+tiotrópio | Base dos grupos B e E |
| Triple LABA+LAMA+ICS | Dois broncodilatadores + anti-inflamatório | fluticasona+umeclidínio+vilanterol, etc. | Mais pneumonias — avaliar BEC |
| ICS isolado | Não se usa isolado na DPOC (ao contrário da asma) | ||
| Roflumilaste | PDE4 oral, anti-inflamatório | comprimido 1×/dia | Bronquite crónica + FEV₁ <50% + exacerbações apesar de triple; náuseas, perda de peso |
| Azitromicina | Macrólido anti-inflamatório | 250 mg 3×/semana ou diária | Exacerbador apesar de triple + não fumador; vigiar audição e QT |
| Mucolíticos | Fluidificam muco | carbocisteína, erdosteína, NAC alta | Podem reduzir exacerbações em bronquíticos que não fazem ICS |
A técnica — onde se ganha ou se perde tudo
De 70 a 80% das pessoas cometem pelo menos um erro que impede o pó ou a névoa de chegar aos brônquios. O inalador não é um spray bucal: é um dispositivo que precisa da sua mão, do seu sopro e do seu tempo. Vale a pena pedir para o ver usar — com o seu inalador — na farmácia ou na consulta, mesmo que o use há anos. Cinco minutos ao balcão mudam o controlo.
Passo a passo — para imprimir
- pMDI com câmara: tire a tampa, agite 4–5 vezes, encaixe na câmara, expire fora da câmara, dispare 1 puff, inspire lento 4–5 s pela boca, sustenha 10 s, respire normal 30 s e repita se for 2.º puff. Lave a câmara 1×/semana só com água e deixe secar ao ar.
- DPI: não agite, carregue/rod e até ouvir o clique, expire completamente fora do aparelho, coloque entre os lábios sem bloquear as ranhuras de ar, inspire o mais rápido e fundo que conseguir desde o início, sustenha 10 s. Se não sentir sabor nenhum, é normal — o pó é quase impercetível.
- SMI (Respimat): com o inalador fechado rode a base até ouvir clique, abra a tampa, expire fora, pressione o botão ao mesmo tempo que inspira devagar, sustenha 10 s. Se não usar há >3 dias, dispare 1 puff para o ar antes.
Três erros que anulam o inalador: não agitar o pMDI; expirar para dentro do DPI (humidade cola o pó); e não fazer a pausa de 10 s em apneia no fim. Se usar pMDI sem câmara, tem de coordenar disparo+inspiração — se não consegue, peça câmara: não é “para crianças”, é para toda a gente que quer que o medicamento chegue ao pulmão.
Tomar todos os dias — quando se está bem é que custa
Asma e DPOC são doenças de todos os dias tratadas com inaladores que se usam quando já não doem. É o oposto do antibiótico. Por isso a adesão real ronda os 30–50% — e a maior parte das “faltas de efeito” são inalador parado.
- “Já estou bem, não preciso hoje.”
- Medo do corticoide — confundir corticoide inalado com corticoide oral.
- Inalador que não se percebe se acabou.
- Dois inaladores com técnicas diferentes — o corpo aprende uma e erra a outra.
- Sem rotina: sem hora e sem sítio fixo.
- Um inalador único quando possível (MART na asma, triple ou duplo na DPOC).
- Ligar à rotina: a seguir ao lavar os dentes, à mesma hora, sempre no mesmo sítio.
- Contador de doses à vista; alarme no telemóvel se ajuda.
- Perceber a diferença: manutenção = todos os dias; alívio = quando precisa — mas na asma até o alívio já leva ICS.
- Pedir à farmácia para rever técnica e contar doses em cada levantamento.
Situações especiais
Asma: não parar ICS
Asma mal controlada tira oxigénio ao feto; ICS bem usado não. Mantém-se o mesmo ICS-LABA que controlava. Crise na grávida trata-se como fora da gravidez — nunca atrasar SABA/ICS-formoterol nem corticoide oral se indicado. Vacina da gripe é recomendada.
Câmara sempre
Até aos 5 anos, pMDI com câmara e máscara; depois, câmara com bocal. DPI só quando a criança consegue inspirar forte — em geral a partir dos 6–8 anos e com treino. Plano escrito com cores (verde/amarelo/vermelho) e peak flow adaptado à altura.
Menos destreza, mais risco
Prefira DPI de clique simples ou SMI se a inspiração já não é forte; pMDI sempre com câmara. Vigiar tremor, boca seca, retenção urinária e quedas; rever inaladores na deprescrição geral. Ensinar cuidador.
Não tratar em gavetas
Asma+DPOC: nunca LABA ou LAMA sem ICS. DPOC com insuficiência cardíaca, ansiedade ou refluxo — a dispneia parece exacerbação, mas não é. Beta-bloqueador seletivo (bisoprolol) se indicado para o coração não está proibido na asma/DPOC controladas — suspender por “ser asmático” faz mais mal do que bem.
Quando é urgente
Poucas doenças mudam tão depressa de “estou bem” para “preciso de ajuda agora”. Ter as regras escritas no frigorífico vale mais do que decorá-las.
Ligue 112 se
- Precisa do inalador de alívio de 3 em 3 horas ou menos e não melhora.
- Fala aos bocados, lábios azulados, tiragem (costelas marcam).
- Peak Flow <50% do seu melhor valor (zona vermelha) após 6–8 puffs com câmara.
- Sonolência, confusão — sinal de retenção de CO₂.
Enquanto espera: sente-se direito, não se deite; 4 puffs de ICS-formoterol ou salbutamol com câmara de 20 em 20 min até 3 vezes se a equipa assim indicou; peça a alguém que fique consigo.
Contacte hoje / 112 se
- Mais falta de ar + mais volume e cor da expetoração + mais tosse durante >24–48 h.
- Febre, dor torácica, inchaço novo das pernas, sonolência ou dor de cabeça matinal (hipercapnia).
- Saturação <90% em ar ambiente se tiver oxímetro (se usa oxigénio, siga o seu alvo prescrito, em geral 88–92%).
- Não consegue completar uma frase sem parar para respirar.
Não aumente oxigénio por conta própria para “atingir 99%” — na DPOC hipercápnica o alvo é mais baixo.
Plano de ação amarelo: na asma (GINA), aumentar ICS-formoterol SOS conforme plano; na DPOC, se tem plano com corticoide oral/antibiótico acordado com o seu médico, inicie-o no dia e contacte a equipa nas 24 h. Plano não é automedicação — é o que já combinaram.
Mitos — o que não é verdade
- “Corticoide inalado vicia e faz mal aos ossos.” Não. A dose inalada é mínima; o que faz mal é o corticoide oral repetido por crises que o ICS evita.
- “Só uso o inalador quando estou aflito.” Na asma isso deixou de ser verdade: até o inalador de alívio já tem de levar ICS (GINA 2025). Na DPOC, usar só SABA deixa-o sempre sintomático.
- “Inalador é para crise, oxigénio é que é para todos os dias.” Ao contrário: inalador de manutenção é todos os dias; oxigénio só em insuficiência respiratória crónica confirmada com gasometria.
- “Se não tenho pieira, não é asma.” Tosse isolada, sobretudo noturna ou com exercício, pode ser a única manifestação.
- “DPOC é só de fumador.” Tabaco explica a maioria, mas biomassa, pó profissional e poluição também causam DPOC — e há DPOC em nunca fumadores.
- “Mudar para pMDI sem câmara é igual.” Sem câmara, metade fica na boca e não no pulmão; DPI com humidade estraga o pó.
- “Vacina da gripe piora a asma/DPOC.” Não. É recomendação expressa de GINA e GOLD para todos os anos — a gripe é um gatilho de exacerbação.
- “Se andar com falta de ar, é melhor não mexer-me.” O descondicionamento agrava a falta de ar; reabilitação e marcha diária melhoram-na, com segurança.
Perguntas frequentes
Porque é que o meu inalador de asma mudou de SABA isolado para ICS-formoterol?
Porque o GINA 2025 — seguindo estudos grandes — mostrou que usar só salbutamol/terbutalina alivia o músculo mas deixa a inflamação por tratar, o que aumenta exacerbações graves e idas à urgência. ICS-formoterol como alívio (AIR) e como manutenção+alívio (MART) trata as duas coisas ao mesmo tempo e reduz quase para metade as crises graves. Daí a frase “nunca SABA isolado”.
Tenho DPOC — porque é que não me deram corticoide inalado logo?
Na DPOC o corticoide inalado só ajuda quem tem inflamação tipo 2 marcada (BEC alto) e exacerbações. Em BEC <100 não ajuda e aumenta pneumonias. A base é LABA+LAMA — dois broncodilatadores — que abrem o brônquio e reduzem hiperinsuflação. ICS só entra se BEC ≥100–300 com exacerbações, como no grupo E.
Posso ficar sem corticoide inalado na DPOC se estou bem há um ano?
Se está em triple e há 12 meses sem exacerbações, com BEC baixo ou com pneumonias de repetição, o GOLD prevê considerar retirar o ICS mantendo LABA+LAMA, com vigilância. É o chamado ICS withdrawal — não é parar de repente em casa, é decisão médica com reavaliação de sintomas e espirometria. Nunca retire só porque “sinto-me bem”.
Qual é a diferença prática entre pMDI, DPI e Respimat?
A respiração que cada um pede. pMDI (spray) exige coordenar disparo com inspiração lenta — a câmara resolve isso. DPI (pó) exige inspiração rápida e forte desde o início e nunca expirar para dentro. SMI (Respimat, névoa lenta) exige rodar a base até ao clique e inspirar devagar ao disparar. O seu pulmão nota a diferença: técnica errada pode cortar metade do efeito.
O que é o CAT e quando devo preocupar-me?
O CAT soma 8 perguntas (0–40). 0–9 impacto ligeiro, 10–20 moderado, 21–30 grave, 31–40 muito grave. CAT ≥10 já coloca a DPOC como “muito sintomática” (grupo B ou E). Mais do que o número absoluto, importa a tendência: subir 2–3 pontos com o mesmo tratamento merece reavaliação. Use a calculadora acima para se situar.
Porque me pedem eosinófilos no sangue (BEC) na DPOC?
Porque é o melhor marcador simples para saber se o corticoide inalado vai ajudar. BEC ≥300 prediz boa resposta a ICS na DPOC exacerbad ora; BEC <100 prediz pouca ou nenhuma. É colhido em fase estável (sem infeção nem corticoide oral recente) e repete-se, porque varia. Na asma também ajuda, mas é um de vários marcadores tipo 2 (com FeNO e IgE).
Fontes
- Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention 2025 — Track 1 preferido (ICS-formoterol AIR/MART em todos os passos), Track 2 alternativo (SABA + ICS), nunca SABA isolado; biológicos por fenótipo.
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of COPD — 2025 Report — ABE assessment, LABA+LAMA como base em B e E, triple se BEC ≥300, ICS withdrawal se BEC <100, ensifentrina, dupilumab para DPOC com BEC ≥300 + bronquite crónica sob triple, vacinas e reabilitação.
- European Medicines Agency / FDA. Aprovações ensifentrina (PDE3/PDE4 inalada, nebulização) 2024 e dupilumab para DPOC eosinofílica (BEC ≥300) 2024–2025.
- Direção-Geral da Saúde. Normas e orientações sobre asma e DPOC; Programa Nacional para as Doenças Respiratórias — vacinação antigripal, antipneumocócica e PNV em doentes respiratórios crónicos.
- Costa J. et al. Materiais de Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa — estrutura pedagógica base; valores e algoritmos atualizados para GINA e GOLD 2025.
Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: GINA 2025 e GOLD 2025.