O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Patologia · 07 · Atualizado Agosto 2026

Tromboembolismo venoso — TVP e embolia pulmonar

O tromboembolismo venoso é a 3.ª causa de morte cardiovascular, a seguir ao enfarte e ao AVC. Acontece quando o sangue forma um coágulo (trombo) dentro de uma veia e esse coágulo bloqueia a circulação. Se ficar na perna chama-se TVP — trombose venosa profunda — coágulo na veia profunda da perna; se um pedaço se solta e viaja até ao pulmão chama-se EP — embolia pulmonar — coágulo que foi parar ao pulmão. Metade das TVP não dá sintomas — por isso importa saber reconhecer, prevenir e tratar.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar anticoagulantes por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico. Se tem falta de ar súbita ou dor no peito, ligue 112.
Nesta página
  1. O que é
  2. Os números
  3. Como se forma
  4. Os sinais
  5. Como se diagnostica
  6. Calculadora Wells
  7. Se não tratar
  8. Sem medicamentos
  9. Medicamentos
  10. Quanto tempo
  11. Situações especiais
  12. Prevenção
  13. Tomar todos os dias
  14. Quando é urgente
  15. Mitos
  16. Perguntas
  17. Fontes

O que é tromboembolismo venoso

O sangue tem de coagular — é o que estanca um corte. O problema é quando coagula dentro da veia, sem ferida. Chamamos a isso trombo (coágulo). O sítio mais frequente é nas veias profundas da perna ou da coxa — veias que ficam no meio do músculo, não as que se veem à superfície. Aí chama-se TVP — trombose venosa profunda — coágulo na veia profunda da perna. Se o trombo cresce ou se parte um fragmento, esse pedaço viaja pela veia cava até ao coração e daí para as artérias do pulmão, onde fica entalado. É a EP — embolia pulmonar — coágulo que viajou para o pulmão e bloqueia o sangue. TVP e EP são duas faces da mesma doença — por isso se fala em TEV — tromboembolismo venoso.

Dicionário em 30 segundos: TVP = trombose venosa profunda — coágulo na veia profunda da perna/coxa. EP = embolia pulmonar — coágulo que foi parar ao pulmão. TEV = tromboembolismo venoso — nome conjunto para TVP+EP. Trombo = coágulo. Êmbolo = coágulo que se soltou e viajou. HBPM = heparina de baixo peso molecular — injeção na barriga. DOAC = anticoagulante oral direto — comprimido moderno (apixabano, rivaroxabano, edoxabano, dabigatrano). Varfarina = anticoagulante antigo que precisa de análises INR = análise do tempo de coagulação. APTT = análise para heparina na veia.
TVP — fica

Coágulo na perna

Forma-se numa veia profunda da barriga da perna ou da coxa. Pode não doer nada (metade são silenciosas) ou dar perna inchada, quente e dorida. O perigo é crescer ou soltar-se.

EP — viajou

Coágulo no pulmão

Um fragmento entope uma artéria do pulmão. O pulmão deixa de receber sangue numa zona — falta ar súbita, dor ao respirar, coração acelerado. Se for grande, baixa a tensão e pode desmaiar.

De coágulo na perna a coágulo no pulmão 1 · TVP Coágulo na veia profunda TROMBO veia femoral Metade sem sintomas Perna inchada e quente quando dá. ÊMBOLO VIAJA 2 · A VIAGEM Veia cava → coração → pulmão coração O coágulo solto segue a corrente. Não doi a viajar — só ao entalar. 3 · EP Pulmão bloqueado BLOQUEIO Falta de ar súbita Dor ao respirar fundo. TVP e EP são a mesma doença em sítios diferentes — por isso o tratamento é o mesmo: anticoagular.
Um trombo na perna pode ficar quieto ou soltar um êmbolo que entope uma artéria do pulmão. A rapidez dos sintomas da EP depende do tamanho do coágulo e do quanto o pulmão ficou sem sangue.
3.ª causa cardiovascular. A seguir ao enfarte e ao AVC, o tromboembolismo venoso é a doença cardiovascular que mais mata — e a que mais se esquece. Cerca de 2 em cada 3 EP acontecem durante ou após um internamento hospitalar.

Os números — em Portugal e no mundo

Os números ajudam a perceber que não é raro — e que é, em grande parte, evitável.

Incidência

1–2 em cada 1 000 por ano

Na população geral europeia: 1 a 2 casos de TEV por 1 000 pessoas por ano. Acima dos 75 anos sobe para 1 em cada 100. Estimativa para Portugal: 10 000 a 20 000 casos por ano (10 milhões × 1–2/1 000), metade com EP associada.

Mortalidade

Até 1 em cada 10 EP morre

Sem tratamento, 25–30% das EP são fatais; com anticoagulação baixa para 1–2%. Na Europa morrem cerca de 400 000 pessoas por ano por TEV — mais do que por cancro da mama e da próstata juntos.

TEV — frequência e peso Europa e estimativa Portugal · CHEST 2021 / ESC 2023 Incidência anual1–2 / 1 000 EP é 1/3 dos TEV~33% Recorrência a 10 anos sem prevenção~30% Hospitalização, cirurgia e imobilidade explicam a maioria dos casos evitáveis.
Sem anticoagulação, 1 em cada 3 volta a ter trombo nos 10 anos seguintes. Com tratamento e prevenção, o risco cai drasticamente — daí os 3 meses mínimos de anticoagulação.
Portugal: não há registo nacional único de TEV — por isso trabalha-se com estimativas europeias. Sabe-se que mais de metade dos casos acontece no hospital ou nas 3 semanas após a alta, sobretudo após cirurgia da anca ou joelho, fraturas e internamentos por doença médica aguda.

Como se forma — a tríade de Virchow explicada

Em 1856 Rudolf Virchow resumiu em três condições que, sozinhas ou juntas, fazem o sangue coagular onde não deve. É a tríade de Virchow — e ainda hoje explica quase tudo. Pense em três pernas de um banco: se uma falha, o banco ainda aguenta; se duas ou três falham ao mesmo tempo, cai.

Tríade de Virchow — as três condições que criam o coágulo TROMBO coágulo 1 · SANGUE PARADO Estase — o sangue deixa de circular imobilidade, voo longo, gesso 2 · PAREDE LESIONADA Veia agredida cirurgia, cateter, trauma 3 · SANGUE QUE COAGULA DEMAIS Hipercoagulabilidade cancro, pílula, gravidez, genes
Quanto mais pernas do banco falham ao mesmo tempo, maior o risco. Cirurgia da anca + imobilidade + pílula = três pernas — daí a profilaxia obrigatória nesses casos.
Fatores de risco — o que conta e o quanto conta
FatorExemplo concretoForça do risco
ImobilidadeRepouso >3 dias, gesso, voo >4 h, paralisia, internamentoalto — até 10× mais nos 3 meses após cirurgia anca/joelho
Cirurgia / traumaPrótese da anca/joelho, fratura grande, cirurgia abdominal/pélvica maiormuito alto — sem prevenção 40–60% têm TVP silenciosa
Cancro ativoPulmão, pâncreas, cólon, estômago, ovário; quimioterapiaalto — 4–7× mais
História de TEV / famíliaJá teve trombo; défice de antitrombina, proteína C ou S — proteínas que travam a coagulaçãoalto — recorrência 30% em 10 anos
HormonasPílula combinada com estrogénio, terapêutica hormonal, gravidez/puerpério (6 sem após parto)moderado a alto — pílula 3–5×; puerpério 5×
Idade e peso>60 anos; obesidade (IMC >30); altura extremamoderado — risco duplica por década
OutrosTabaco, COVID grave, síndroma nefrótica, varizes graves, síndrome antifosfolípidomoderado
O risco é cumulativo. Uma mulher de 32 anos com pílula e voo de 8 h já tem dois fatores; se fez cirurgia há 2 semanas, tem três. É por isso que o mesmo voo é banal para um e perigoso para outro — conta a soma, não um fator isolado.

Os sinais — e o que engana

Metade das TVP não dá sintomas. Quando dá, é quase sempre numa só perna. A EP aparece de repente, e quanto maior o coágulo, mais dramática é.

TVP — perna

O que pode notar

  • Inchaço de uma perna — toda a perna ou só panturrilha — que não cede à noite.
  • Dor ou rigidez na barriga da perna ou coxa, pior a andar ou à palpação do trajeto da veia.
  • Calor, vermelhidão (eritema) ou tom azulado (cianose); veias mais à mostra.
  • Edema com cacifo — ao carregar com o dedo fica covinha.
  • Cansaço / peso na perna.
  • Metade sem nada — por isso cirurgia e imobilidade obrigam a prevenção mesmo sem queixas.
EP — pulmão

O que pode notar

  • Falta de ar súbita (dispneia) — sem constipação.
  • Dor no peito que piora ao respirar fundo (dor pleurítica).
  • Respirar depressa (taquipneia) e coração acelerado (taquicardia).
  • Tosse, por vezes com sangue (hemoptise), ansiedade, sensação de desmaio.
  • EP maciça: desmaio (síncope), queda da tensão, choque — emergência 112.

O que engana: cãibra, rotura muscular, celulite, inchaço das duas pernas por coração/rim também incham — mas quase sempre é bilateral. TVP é quase sempre unilateral. Se as duas pernas incham juntas, a causa raramente é trombo.

TVP sem dor não é TVP sem risco. O coágulo silencioso também pode soltar êmbolo. Daí a importância da prevenção no hospital — não se espera que doa para prevenir.

Como se diagnostica — sem jargão

Ninguém diagnostica TVP ou EP só a olhar. O médico combina três coisas: probabilidade (um questionário), análise ao sangue e imagem.

1 · Probabilidade

Score de Wells — “questionário de probabilidade”

São 10 perguntas que somam pontos: cancro, imobilidade, perna inchada, dor no trajeto da veia, TVP anterior, etc. Se o médico acha que outro diagnóstico é mais provável, desconta 2 pontos. Resultado: baixa (−2 a 0), moderada (1–2), alta (≥3) probabilidade. É o que decide o resto.

2 · Análise e imagem

D-dímeros + ecografia / angioTC

D-dímeros = fragmentos que ficam no sangue quando há coagulação. Se estão negativos e a probabilidade é baixa, exclui TVP/EP com segurança. Se estão positivos ou a probabilidade é alta → ecografia Doppler da perna (“ecografia da perna” com sonda que vê o coágulo) para TVP e angioTC (“TAC com contraste do pulmão”) para EP.

O percurso típico
PassoO que se fazPara si
WellsQuestionário 10 itensDefine se vai para D-dímeros ou direto para imagem
D-dímerosAnálise ao sangueSe negativo + Wells baixo → TEV muito pouco provável, sem imagem
Eco DopplerEcografia da pernaVê veia comprimida com coágulo — confirma TVP
AngioTC torácicaTAC com contraste do pulmãoVê defeito de enchimento numa artéria pulmonar — confirma EP
Coração e pernasTroponina, BNP, eco coraçãoAvalia gravidade da EP (se o coração direito sofre)

Calculadora — score de Wells para TVP

Assinale o que tem neste momento. O cálculo é automático — é o mesmo questionário que o médico usa na urgência. Isto não é diagnóstico: se tem perna inchada com dor ou falta de ar súbita, procure ajuda hoje.

Wells TVP

Score −2 a 9 · 10 itens
Score soma +1 por item (exceto −2 no último)

Traduzido de Wells PS et al., 2003 e validado no diagnóstico de TVP. Probabilidade: baixa ≤0, moderada 1–2, alta ≥3. Na prática atual usa-se D-dímeros se Wells ≤1 e imagem se ≥2 (ou D-dímeros positivos). Isto é leitura educativa, não substitui avaliação presencial.

O que acontece se não tratar — complicações

Tratar cedo evita três problemas grandes — um imediato e dois que ficam para anos.

Imediato

Extensão e EP

Sem anticoagulação, 1 em cada 2 TVP progride e 1 em cada 5 faz EP nos dias seguintes. É a razão para anticoagular no próprio dia quando a suspeita é alta — sem esperar pelo eco do dia seguinte.

Meses a anos — 20–30%

Síndrome pós-trombótica

Veia fica com válvulas estragadas → perna cronicamente inchada, pesada, com manchas acastanhadas, comichão e por vezes úlcera que custa a fechar. Meias elásticas e compressão ajudam mas não apagam a lesão.

Anos — 2–4%

Hipertensão pulmonar tromboembólica crónica

Coágulos organizados que não se desfazem entopem de forma crónica o pulmão — falta de ar que não passa, coração direito sobrecarregado. Rara mas grave; exige centro especializado, por vezes cirurgia.

Sem tratamento vs. com anticoagulação
Sem anticoagularCom DOAC/HBPM bem tomados
Recorrência >25% em 3 meses2–4% a 3 meses
EP em ~20% após TVP proximal<2%
Mortalidade EP maciça 25–30%~1–2% com tratamento
Pós-trombótica 20–50% a 2 anos20–30% mesmo tratando — anticoagular não apaga, mas reduz
Recorrência: sem anticoagulação prolongada, 30% volta a ter trombo em 10 anos — sobretudo se o primeiro foi sem causa clara. É o que decide manter anticoagulação para além dos 3 meses iniciais.

O que ajuda sem ser comprimido

Anticoagulante trata o trombo, mas não faz tudo sozinho. Isto anda a par.

Hospital e pós-cirurgia

Mexer cedo

Mobilização precoce — levantar no próprio dia quando possível. Compressão pneumática intermitente (manga que aperta a perna ligada a máquina) enquanto está de cama. Meias elásticas até ao joelho (18–21 mmHg) se tolerar — sobretudo após TVP para aliviar síndrome pós-trombótica.

Todos os dias

Hidratação e movimento

Beber água suficiente, andar 2–3 min a cada hora quando está sentado muito tempo, exercícios de panturrilha (puxar pés para cima 10× cada hora). Não é “remédio natural”: é o que impede que o sangue fique parado na tríade de Virchow.

Após TVP

Reabilitação da perna

Caminhar todos os dias assim que a dor deixar, elevar a perna acima do coração 3–4×/dia 15 min, meia elástica de manhã antes de levantar. Repouso absoluto na cama não ajuda — piora a estase.

Voo longo e viagens

O que vale mesmo

Corredor + levantar a cada 2 h + panturrilhas. Meias até ao joelho em quem tem risco. Aspirina não previne TVP de voo — não tome por conta própria.

Filtro de veia cava — “chapéu-chuva” metálico que se coloca na veia cava para apanhar êmbolos — só se não puder mesmo anticoagular (hemorragia ativa). Não previne TVP, só EP, e o próprio filtro pode trombosar. Não é alternativa ao anticoagulante.

Medicamentos — as 4 famílias que afinam o sangue

Anticoagulante não dissolve o coágulo na hora — impede que cresça e que venha outro. O corpo trata de desfazer o trombo aos poucos. Hoje, em Portugal, o padrão são os DOAC — anticoagulantes orais diretos — comprimidos modernos.

Tratamento agudo — o que se escolhe no dia 1 (CHEST 2021 · ESC 2023) TVP / EP confirmada sem hemorragia ativa DOAC de início — preferido apixabano ou rivaroxabano (sem HBPM antes) EM VEZ DE HBPM → edoxabano / dabigatrano 5 d de HBPM primeiro PREFERIDO 2021+ Apixabano 10 mg 2×/d 7 d → 5 mg 2×/d ou Rivaroxabano 15 mg 2×/d 21 d → 20 mg/d ALTERNATIVA Apixabano / rivaroxabano também 1×/d após 6 m em dose reduzida Quando não é DOAC de início: Grávida HBPM (não passa placenta) Cancro GI/GU não ressecado HBPM ou cuidado com DOAC Antifosfolípido / rim grave Varfarina (INR 2–3) Trombólise (dissolver na veia) só em EP instável com choque — não em TVP estável.
CHEST 2021 (2.ª atualização do AT9): DOAC oral Xa preferido a varfarina e a HBPM na fase inicial (3 meses), inclusive em cancro (exceto trato GI/GU com lesão não ressecada). Varfarina fica para síndrome antifosfolípido e quando DOAC é impossível.
Famílias — o que fazem, como se tomam, o que exigem
FamíliaO que fazComo se tomaAnálises / interações
Heparina não fracionada
na veia
Trava coagulação pela antitrombina — ação imediata, meia-vida curtaPerfusão na veia no hospitalPrecisa APTT frequente; reversível com protamina. Hoje quase só em bloco ou rim muito grave.
HBPM — heparina de baixo peso molecular — injeção na barriga
enoxaparina
Igual mas previsível, dose por peso1–2 injeções/dia na barriga, 5–10 dias ou mais se gravidez/cancro. Sem INR. Cuidado em rim grave e peso >120 kg.
DOAC — anticoagulante oral direto — comprimido moderno
apixabano, rivaroxabano, edoxabano, dabigatrano
Bloqueia direto Xa (primeiros 3) ou trombina (dabigatrano)Comprimido 1–2×/dia. Sem análises de rotina. Rivaroxabano com comida. Dabigatrano/edoxabano precisam 5 d de HBPM antes.Interage com cetoconazol, rifampicina, carbamazepina, fenitoína, hipericão. Ajuste em rim. Não em gravidez.
Varfarina
antigo, cumarínico
Bloqueia fabrico de fatores que precisam de vitamina KComprimido 1×/dia, dose ajustadaPrecisa INR 2–3 regular; sensível a vitamina K dos alimentos, álcool, AINEs e muitos fármacos. Fica para antifosfolípido.
Trombolíticos
alteplase, tenecteplase
Dissolvem coágulo já formadoNa veia, na urgência, em EP com choqueRisco hemorrágico maior — só quando o benefício supera risco.
DOAC é preferido porque: menos hemorragias graves (sobretudo intracranianas) que varfarina, sem INR, menos interações alimentares, efeito previsível. Por isso o CHEST 2021 e a ESC 2023 o colocam à frente da varfarina para os primeiros 3 meses — e da HBPM em cancro sem risco hemorrágico GI/GU.
DOAC lado a lado (doses de Portugal, adulto com rim normal)
DOACInício (agudo)Manutenção (3–6 m)Prolongado (>6 m, se indicado)
Apixabano10 mg 2×/d — 7 dias5 mg 2×/d2,5 mg 2×/d (dose reduzida)
Rivaroxabano15 mg 2×/d — 21 dias (com comida)20 mg 1×/d10 mg 1×/d (dose reduzida)
Edoxabano5 dias HBPM → 60 mg 1×/d (30 mg se ≤60 kg ou rim fraco ou P-gp)manter 60/30 mg
Dabigatrano5 dias HBPM → 150 mg 2×/d (110 mg 2×/d se ≥80 anos ou risco hemorrágico)manter 150/110 mg

Não pare sem falar. Parar DOAC sem indicação faz o risco de novo trombo voltar em dias. Se vai fazer extração dentária, endoscopia ou cirurgia, pergunte quando parar e quando retomar — em geral 24–48 h antes consoante o DOAC e o risco hemorrágico, e retomar 24 h depois se não sangra.

Quanto tempo — 3 meses mínimo, depois depende

Os primeiros 3 meses são para tratar o trombo atual. O que vem depois é para evitar o próximo. A decisão depende de ter havido causa passageira ou não.

Duração — regra prática CHEST 2021
SituaçãoO que significaDuração
Provocado por fator maior transitórioCirurgia major, imobilização >3 dias, gesso, voo longo + outro fator3 meses e parar (se fator desapareceu)
Provocado por fator menor transitórioPílula, gravidez, viagem isolada, doença médica breve3 meses; reconsiderar se fator persiste
Não provocado (idiopático)Sem causa encontrada3 meses + avaliar prolongado — muitos ficam indefinido se risco hemorrágico baixo
PersistenteCancro ativo, antifosfolípido, 2.º TEV não provocadoIndefinido — enquanto persistir o fator
Após 6 meses

Dose reduzida

Apixabano 2,5 mg 2×/d ou rivaroxabano 10 mg/d após 6 meses mantêm proteção com menos hemorragia (estudos AMPLIFY-EXT e EINSTEIN-CHOICE). É a dose de “fase prolongada”, não de tratamento agudo.

Aspirina?

Não substitui anticoagulante

Se não puder mesmo manter DOAC, aspirina baixa recorrência ~30%, mas 3× menos que DOAC. Só se anticoagulação for impossível ou recusada.

Quando reavaliar: aos 3 e aos 6 meses — sempre com balanço trombo vs. hemorragia. D-dímeros após parar, sexo masculino, TVP proximal e EP são fatores que empurram para prolongar.

Situações especiais

Cirurgia / ortopedia

Prótese anca/joelho — DGS 026/2012

Profilaxia obrigatória: HBPM, rivaroxabano, apixabano ou dabigatrano — em geral 10–14 dias joelho, 28–35 dias anca — + mobilização no dia 1. Se já faz anticoagulante crónico, plano de pausa/ponte só com anestesia e cirurgia.

Gravidez — DGS 2022

HBPM, nunca DOAC nem varfarina

DOAC atravessa placenta e varfarina malforma. HBPM é segura (não passa placenta) e é a escolha para tratar e prevenir na gravidez e no puerpério (6 semanas após parto). Suspender 12–24 h antes de parto/anestesia.

Cancro

DOAC oral Xa preferido — com asterisco

Apixabano/edoxabano/rivaroxabano preferidos a HBPM (CHEST 2021) se risco hemorrágico GI/GU não for alto. Se tumor do tubo digestivo ou bexiga não ressecado ou com sangramento, prefira HBPM. Duração indefinida enquanto cancro ativo.

Rim, idade, peso

Ajustar, não improvisar

Rim grave (ClCr <15–30): varfarina ou HBPM ajustada — DOAC contraindicado. >75 anos: DOAC é seguro, mas atenção a quedas, interações e função renal. Peso <50 ou >120 kg: confirmar dose com especialista — DOAC pode variar.

Síndrome antifosfolípido (doença autoimune que faz trombos arteriais e venosos + abortos): varfarina INR 2–3 — DOAC é inferior e teve mais eventos (CHEST 2021 contra DOAC aqui). É a grande exceção onde o “antigo” continua a ser o melhor.

Prevenção — antes que o coágulo apareça

Prevenir é mais eficaz que tratar — e é onde mais se falha.

No hospital

Avaliar todos

Todo o internamento deve ter avaliação de risco na admissão (DGS 2014): HBPM preventiva ou DOAC profilático + meias/compressão + levantar cedo. Fica em casa 7–10 dias após doença médica (AVC, infeção grave) e até 35 dias após anca.

Cirurgia e avião

Combinar medidas

Cirurgia: parar estrogénios 4 semanas antes se possível, HBPM 12 h antes/depois conforme risco. Voo >4 h: corredor, água, meias se risco, panturrilhas — HBPM só em risco muito alto e com receita.

Prevenção por contexto
ContextoO que se fazQuanto tempo
Cirurgia ancaHBPM ou DOAC + mobilização28–35 dias
Cirurgia joelhoHBPM ou DOAC10–14 dias
Cirurgia abdominal major / cancroHBPM7 dias (28 se cancro)
Doença médica aguda internadaHBPM preventivadurante internamento + até mobilizar
Gravidez com TEV prévioHBPM profiláticatoda a gravidez + 6 sem puerpério

Tomar todos os dias — o que interfere

DOAC só protege enquanto está no sangue — falhar 2–3 tomas seguidas já deixa de proteger. Varfarina oscila com comida e outros fármacos.

Como não falhar

Rotina

Caixa semanal, alarme no telemóvel, associar à escovagem dos dentes. Se vomitar <30 min após DOAC, repetir dose; se >30 min, não repetir. Se esquecer apixabano/dabigatrano (2×/d) até 6 h, tome; depois salte. Rivaroxabano/edoxabano (1×/d) tome até 12 h de atraso.

O que aumenta hemorragia

Interações que importam

AINEs (ibuprofeno, diclofenac, naproxeno) + anticoagulante = úlcera e hemorragia — prefira paracetamol. Álcool em excesso, hipericão, rifampicina, carbamazepina/fenitoína cortam efeito do DOAC. Antifúngicos azólicos e alguns antibióticos aumentam-no.

Alimentos e plantas — o que muda com cada anticoagulante
Com DOAC (apixabano, rivaroxabano…)Com varfarina
Sem restrição de vitamina K. Couve, espinafres, brócolos à vontade — não alteram DOAC.Vitamina K interfere. Não é proibir — é manter regular: coma sempre a mesma quantidade por semana e avise se muda dieta radicalmente.
Evitar hipericão, curcuma em excesso e gengibre em doses altas (efeito antiagregante somado).Igual + atenção a chá verde, coenzima Q10, ómega-3 em excesso, cranberry, gengibre/alho em suplemento — todos mexem no INR.
Álcool: até 1 bebida/dia em geral tolerado; binge aumenta hemorragia.Álcool: varia INR — tanto subida como descida imprevisível.
Regra de ouro: diga sempre que toma anticoagulante — no dentista, na farmácia, no suplemento “natural”. Metade das interações nasce no balcão sem receita.

Quando é urgente

Anticoagular evita trombo mas aumenta hemorragia. Saiba distinguir as duas urgências.

Trombo / EP — LIGUE 112

Sinais de EP maciça

  • Falta de ar súbita que não passa + dor no peito ao respirar.
  • Desmaio, suores frios, lábios azulados, tensão muito baixa.
  • Pulso >120/min e a respirar >30/min em repouso.

Não conduza. Deite-se com tronco elevado, não coma/beber, peça a alguém que fique consigo até chegar ajuda.

Hemorragia por anticoagulante

O que é grave vs. ligeiro

  • Grave — urgência: vómitos com sangue, fezes pretas tipo alcatrão, urina muito vermelha, dor de cabeça súbita forte, queda com pancada na cabeça, falta que não estanca >10 min.
  • Ligeiro — fale no próprio dia: gengivas a sangrar >10 min após escovar, nódoas negras grandes sem pancada, sangramento nasal >10 min, sangue na urina rosado, menstruação muito mais abundante.

Nunca pare anticoagulante por sangrar um pouco sem falar com o médico. Muitas hemorragias ligeiras controlam-se com medidas locais (compressão, gelo, ácido tranexâmico em gel) mantendo o anticoagulante — parar sem alternativa pode custar um novo trombo nos dias seguintes.

Mitos

O que se diz · e o que se sabe
MitoO que se sabe
“Afinar o sangue todo cura o coágulo em horas.”Não dissolve na hora. Impede que cresça; o corpo reabsorve em semanas a meses. Daí os 3 meses mínimos.
“Varizes causam trombose profunda.”Varizes são veias superficiais. TVP é em veias profundas. Varizes aumentam risco de trombose superficial, mas raramente de TVP/EP — não são a mesma doença.
“Com DOAC não posso comer couves.”Isso é da varfarina. Com DOAC pode comer couve, espinafres e brócolos à vontade — não mexem no efeito.
“Massajar a perna inchada desfaz o coágulo.”Não massaje — pode soltar o coágulo. Eleve, comprima com meia e anticoagule.
“Aspirina serve igual para prevenir trombose da perna.”Não. Aspirina é antiagregante para artérias (enfarte, AVC). Para veias (TVP/EP) precisa anticoagulante — aspirina é 3× menos eficaz.
“Depois de 3 meses estou curado para sempre.”3 meses tratam o episódio. Recorrência sem causa clara é 10% ao ano — por isso se avalia prolongar em dose reduzida.
“DOAC precisa de análises como a varfarina.”Não precisa INR. Precisa vigiar rim (creatinina) e hemoglobina 1–2×/ano e sempre que há doença aguda.
“Filtro na veia cava evita comprimidos para sempre.”Filtro só apanha êmbolos, não evita TVP — e pode trombosar. Nunca substitui anticoagulação quando esta é possível.

Perguntas frequentes

Porque me deram apixabano/rivaroxabano em vez de varfarina?

Porque os estudos grandes (AMPLIFY, EINSTEIN) e a atualização CHEST 2021 mostraram que os DOAC — anticoagulantes orais diretos — comprimidos modernos como apixabano e rivaroxabano evitam recorrências tão bem como a varfarina, mas com menos hemorragias graves, sem INR e sem dieta de vitamina K. O rivaroxabano e o apixabano começam sem HBPM — toma logo comprimido. Varfarina fica para síndrome antifosfolípido ou quando não pode mesmo tomar DOAC.

Posso ter TVP mesmo sem dor?

Sim — metade não dói nem incha. É por isso que após prótese da anca sem prevenção 40–60% têm TVP silenciosa no eco. Se teve cirurgia, gesso ou esteve acamado, a vigilância e a profilaxia valem mesmo sem queixas.

Quanto tempo tenho de afinar o sangue?

No mínimo 3 meses para todos. Depois, se o trombo foi por cirurgia ou imobilidade passageira e já passou, pode parar. Se foi sem causa ou com cancro/antifosfolípido, conversa-se para manter — muitos ficam com apixabano 2,5 mg 2×/d ou rivaroxabano 10 mg/d a longo prazo, com menos hemorragia que a dose inicial.

Posso tomar ibuprofeno com anticoagulante?

Evite. AINEs — anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenac e naproxeno — duplicam o risco de úlcera e hemorragia quando juntos com anticoagulante. Para dor ou febre prefira paracetamol (até 3 g/dia em adulto sem doença hepática). Se mesmo precisar de AINE, fale antes — pode precisar de protetor gástrico e por poucos dias.

Estou grávida e tive trombose antes — o que faço?

Diga na primeira consulta. Vai fazer HBPM — heparina de baixo peso molecular — injeção na barriga durante toda a gravidez e 6 semanas após o parto — é segura, não passa ao bebé. DOAC e varfarina estão proibidos na gravidez. Planeie o parto com anestesia para pausar a HBPM 12–24 h antes.

Vou tirar um dente / fazer endoscopia — paro o anticoagulante?

Depende do procedimento e do seu risco. Nunca pare por conta própria. Para DOAC, em geral pausa-se 24 h antes se baixo risco hemorrágico, 48 h se alto risco (ex.: polipectomia) e retoma-se 24 h depois se não sangra. Extrações simples muitas vezes mantêm DOAC com medidas locais. Leve sempre a lista e a hora da última toma.

Fontes

Este guia moderniza um documento de Farmacoterapia II (FFUL, Maria Augusta Soares, 2010–2011) com as normas em vigor. Se o seu médico disser diferente, siga o seu caso — a norma escreve-se para populações, a consulta decide para si.

  • Stevens SM et al. — Antithrombotic Therapy for VTE Disease: Second Update of the CHEST Guideline and Expert Panel Report (AT9, 2nd update) — Chest 2021 — DOAC (inibidor oral do fator Xa) preferido a varfarina nos 3 meses iniciais; DOAC preferido a HBPM em cancro; dose reduzida de apixabano/rivaroxabano em fase prolongada; contra DOAC em síndrome antifosfolípido.
  • Konstantinides SV et al. — ESC Guidelines on Acute Pulmonary Embolism 2023 Update — algoritmo de risco, trombólise só se instabilidade hemodinâmica, DOAC como padrão ambulatorial, anticoagulação indefinida se não provocado com risco hemorrágico baixo.
  • Kahn SR et al. — ASH Guidelines for Management of Venous Thromboembolism 2020–2023 — duração, trombofilias, filtros de veia cava, profilaxia médica e cirúrgica.
  • European Society for Vascular Surgery — ESVS Guidelines on Venous Thrombosis 2023 — diagnóstico por eco, compressão, pós-trombótica e varfarina vs DOAC.
  • Direção-Geral da Saúde — Norma 026/2012 (Profilaxia cirúrgica ortopédica), Norma de profilaxia do TEV perioperatória 2014, Normas de gravidez e puerpério 2022 — durações 10–35 dias em anca/joelho e HBPM na gravidez.
  • Agnelli G et al. — AMPLIFY (apixabano) e EINSTEIN (rivaroxabano) — ensaios que sustentam início direto e dose reduzida prolongada; AMPLIFY-EXT e EINSTEIN-CHOICE.
  • Costa J et al. — Materiais de Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa — estrutura pedagógica base; conteúdo farmacológico atualizado para DOAC e guidelines 2021–2023.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: CHEST 2021 (2nd update AT9), ESC 2023, ASH 2020/2023, ESVS 2023 e normas DGS.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.