O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Patologia · 03

Dislipidemias

Quase dois terços dos adultos portugueses têm o colesterol acima do recomendado. Não dói, não se vê e não dá aviso nenhum — vai construindo placa dentro das artérias durante trinta anos até ao dia em que uma delas entope. Este guia explica o que os números querem dizer, o que cada medicamento faz e o que fazer quando ele incomoda.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.

O colesterol não é o inimigo

Vale a pena começar por aqui, porque quase toda a gente ouviu o contrário. O colesterol é uma gordura essencial: faz parte da membrana de todas as células do corpo, é a matéria-prima da vitamina D, das hormonas sexuais, do cortisol e dos ácidos biliares que digerem a comida. Sem colesterol não há vida.

Cerca de três quartos do colesterol que tem no sangue foi fabricado pelo seu próprio fígado. Só o resto vem da comida. É por isso que há pessoas que comem mal e têm o colesterol normal, e pessoas cuidadosas que o têm alto — a fábrica interna trabalha a ritmos diferentes conforme os genes de cada um.

Dislipidemia é ter as gorduras do sangue desequilibradas — colesterol LDL a mais, HDL a menos, triglicéridos a mais, ou várias coisas ao mesmo tempo.

LDL, HDL e triglicéridos: quem é quem

O colesterol é gordura e o sangue é água — não se misturam. Por isso o colesterol viaja dentro de transportadores, e são esses transportadores que se medem na análise.

Fígado fabrica e recicla Tecidos do corpo células, hormonas, membranas LDL leva o colesterol para fora o que chamam "colesterol mau" HDL traz o excesso de volta o "colesterol bom" o que entra a mais fica na parede das artérias Nenhum dos dois é bom ou mau em si — o problema é o desequilíbrio entre eles.
O colesterol não circula solto no sangue — anda dentro de transportadores. O LDL entrega, o HDL recolhe. É por isso que se medem os dois e não só o colesterol total.
O que interessa mesmo

LDL

Leva o colesterol do fígado para os tecidos. Quando há LDL a mais, algumas partículas atravessam a parede das artérias e ficam lá presas — é aí que começa a placa. É o número que os medicamentos atacam e o único que tem alvo definido.

Protetor, mas não é um alvo

HDL

Recolhe o excesso e devolve-o ao fígado. Ter HDL baixo é sinal de risco maior — mas os medicamentos que o subiram artificialmente não reduziram enfartes nos ensaios. Sobe-se com exercício, com deixar de fumar e com perder peso, não com comprimidos.

O que reage à comida e ao álcool

Triglicéridos

A forma como o corpo guarda as calorias a mais. Sobem com açúcar, álcool, excesso de peso e diabetes mal controlada. Muito altos, deixam de ser um problema de artérias e passam a ser risco de pancreatite.

Cada vez mais usados

Não-HDL e ApoB

O não-HDL é o colesterol total menos o HDL — junta tudo o que faz mal num só número. A ApoB conta as partículas em vez do colesterol que transportam, e é ainda mais fiel ao risco. Aparecem cada vez mais nas análises, sobretudo quando os triglicéridos estão altos.

Os números da análise

Estes são os valores de referência clássicos, os que costumam vir impressos no boletim de análises com uma seta ao lado.

Valores de referência · mg/dL
AnáliseDesejávelLimítrofeElevado
Colesterol total< 200200–239≥ 240
LDL< 100130–159≥ 160 · muito alto ≥ 190
HDL≥ 60 protetor40–59< 40 é que é mau
Triglicéridos< 150150–199≥ 200 · muito alto ≥ 500
Mas há uma armadilha nesta tabela. Para o LDL, estes valores dizem respeito à população em geral. O seu alvo não depende só do número — depende de quanto risco cardiovascular já tem acumulado. Um LDL de 95 mg/dL não tem o mesmo significado numa pessoa de 35 anos saudável e em alguém que teve um enfarte no ano passado.

Preciso de estar em jejum?

Hoje, para a maioria das situações, não. As recomendações europeias aceitam o perfil lipídico sem jejum, porque o LDL quase não varia com as refeições. O jejum de 12 horas continua a pedir-se quando os triglicéridos estão muito altos ou quando é preciso compará-los com rigor entre análises. Siga o que estiver na sua requisição.

Onde está o seu LDL

Escreva o LDL da sua última análise e escolha a situação que mais se aproxima da sua. Isto mostra a distância até ao alvo — não é uma avaliação de risco, que só o seu médico faz.

Leitor de LDL

Colesterol LDL · mg/dL
5075100125150175200225250LDLmg/dLALVO 100 132
Leitura
Acima do alvo
Para a categoria risco moderado, o alvo é abaixo de 100 mg/dL. Está 32 mg/dL acima — seria preciso baixar cerca de 24%. É uma distância que costuma ser vencível: uma estatina de alta intensidade sozinha baixa perto de 50%.
Alvos das recomendações europeias em vigor. Quem decide a sua categoria de risco é o seu médico — isto é uma leitura de escala, não uma avaliação de risco.

Porque é que o seu alvo não é o do vizinho

Esta é a mudança mais importante das últimas duas décadas, e a que gera mais confusão ao balcão da farmácia. Deixou de haver um valor normal de colesterol. Há um alvo por pessoa, e quanto mais estragos já houver, mais baixo ele é.

Quanto maior o risco, mais baixo tem de estar o LDL Alvos das recomendações europeias em vigor Risco muito alto< 55 mg/dLJá teve enfarte ou AVC, doença das artérias, diabetes com lesão de órgãoRisco alto< 70 mg/dLHipercolesterolemia familiar, diabetes de longa duração, doença renal moderadaRisco moderado< 100 mg/dLFatores de risco presentes, sem doença estabelecidaRisco baixo< 116 mg/dLPoucos ou nenhuns fatores de risco Nos dois níveis de risco mais altos exige-se também uma descida de pelo menos 50% face ao valor inicial.
Não existe um valor de colesterol bom para toda a gente. O mesmo LDL de 100 mg/dL é tranquilizador numa pessoa saudável e claramente insuficiente em quem já teve um enfarte.

A lógica é simples: em quem já tem placa nas artérias, cada partícula de LDL a mais continua a alimentá-la. Baixar muito o LDL nessas pessoas faz a placa estabilizar — e há evidência de que pode até fazê-la regredir um pouco.

Novidade 2025: a atualização focada ESC/EAS 2025 mantém os alvos de LDL iguais aos de 2019 (<55 muito alto, <70 alto, <100 moderado, <116 baixo), mas recomenda agora o cálculo do risco com SCORE2 (<70 anos) e SCORE2-OP (≥70 anos) em vez do SCORE clássico — prevê enfarte e AVC fatais e não fatais — e valoriza a Lp(a) >50 mg/dL (≈105 nmol/L) como modificador de risco. Na síndrome coronária aguda, preconiza intensificar o tratamento hipolipemiante ainda durante o internamento (“strike early and strong”: estatina alta + ezetimiba ± PCSK9/bempedoico) conforme o LDL necessário para atingir o alvo.
Não há um valor de LDL "baixo demais" que se saiba ser perigoso. Ao contrário do que muita gente teme, os ensaios com LDL abaixo de 40 mg/dL durante anos não mostraram problemas de memória, de hormonas ou de fígado atribuíveis a esses valores. Recém-nascidos têm LDL à volta de 30 mg/dL.

A doença que só existe no papel

Ter colesterol alto não se sente. Não dá dor de cabeça, não dá cansaço, não dá formigueiro nas pernas, não dá tonturas. Nenhum sintoma. É por isso que a única forma de saber é a análise, e é por isso que tanta gente descobre no dia do enfarte.

Há uma exceção rara: quando o colesterol é muitíssimo alto durante anos — em regra por causa genética — pode acumular-se onde se vê.

Arco corneano

Um anel esbranquiçado à volta da íris. Depois dos 60 anos é banal e não significa nada. Antes dos 45, é sinal de alerta.

Xantelasmas

Placas amareladas nas pálpebras, sobretudo no canto interno. Confundem-se com manchas de idade — e merecem uma análise ao colesterol.

Xantomas dos tendões

Nódulos duros nos tendões de Aquiles ou nos dedos das mãos. São quase específicos de hipercolesterolemia familiar e obrigam a investigar a família toda.

O que acontece dentro da artéria

Perceber isto muda a forma como se olha para o comprimido diário.

Como se forma a placa — vista de dentro da artéria Artéria normalparede lisa,sangue passa bemO LDL entraatravessa a paredee fica lá presoEstria de gorduracélulas de defesaenchem-se de gorduraPlaca formadaendurece eestreita o canalRutura e coáguloa placa parte-se;o coágulo tapa tudo Os quatro primeiros passos demoram décadas e não dão sintoma. O quinto demora minutos.
É por isto que se trata um número que não se sente. Quando aparece o sintoma, a placa já leva trinta anos de construção.

O passo que mata não é o estreitamento — é a rutura. Uma placa pequena mas instável, com uma capa fina, pode romper e formar um coágulo que fecha a artéria em segundos. Uma placa grande mas estável pode não dar nada durante anos.

É aqui que as estatinas fazem mais do que baixar um número. Além de reduzirem o LDL, tornam a capa da placa mais espessa e menos inflamada — mais difícil de romper. Parte do benefício aparece em poucas semanas, muito antes de se ver qualquer diferença na espessura.

O colesterol em Portugal

O colesterol dos portugueses Adultos dos 25 aos 74 anos · Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico Têm o colesterol elevado63,3%Estão a tomar medicação19,3%Dos medicados, ainda acima do alvo43,3% Dois terços têm o problema. Um em cada cinco trata-o. Metade desses não chegou ao alvo.
A diferença entre a primeira barra e a segunda é a medida de quantas pessoas têm colesterol alto sem o saber ou sem o tratar.

Portugal tem historicamente uma mortalidade coronária das mais baixas da Europa — mas uma mortalidade por AVC das mais altas. O colesterol pesa nas duas, e o intervalo entre a segunda e a terceira barra acima é a medida do que falta fazer: não basta iniciar o tratamento, é preciso chegar ao alvo.

Porque é que o colesterol sobe

Na maioria das pessoas é uma combinação de genética com hábitos e idade. Mas há um conjunto de causas que vale sempre a pena excluir antes de se assumir que é "só o colesterol".

Doenças que sobem as gorduras do sangue

  • Hipotiroidismo. É a causa secundária mais comum e a mais fácil de tratar — corrigida a tiroide, o colesterol costuma descer sozinho. Justifica sempre um doseamento de TSH antes de começar uma estatina.
  • Diabetes mal controlada. Sobe sobretudo os triglicéridos e baixa o HDL.
  • Doença renal e síndrome nefrótico.
  • Doença hepática e colestase.
  • Excesso de álcool — os triglicéridos são muito sensíveis.
  • Gravidez — sobe fisiologicamente e volta ao normal depois.

Medicamentos que sobem o colesterol ou os triglicéridos

MedicamentoO que faz ao perfil lipídico
Corticoides (prednisolona e semelhantes)Sobem colesterol total, LDL e triglicéridos
Diuréticos tiazídicosSobem LDL e colesterol total
Beta-bloqueadores mais antigosSobem triglicéridos e baixam o HDL
Ciclosporina e alguns imunossupressoresSobem colesterol total e LDL
Isotretinoína (para a acne)Sobe triglicéridos e colesterol, baixa o HDL
Esteroides anabolizantesBaixam muito o HDL
Estrogénios orais, alguns progestagéniosSobem triglicéridos
TamoxifenoSobe triglicéridos
Nunca pare nenhum destes por causa do colesterol. Vários tratam doenças mais urgentes do que a dislipidemia. Mas diga na consulta o que toma — a explicação para uma análise que piorou de repente está muitas vezes na caixa de comprimidos.

Hipercolesterolemia familiar

Existe uma forma hereditária de colesterol alto que é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina: afeta cerca de 1 em cada 300 pessoas. Em Portugal serão à volta de 20 000 pessoas, e a esmagadora maioria não sabe.

Quem a tem nasce com LDL alto e passa a vida inteira com ele alto — não é o resultado de anos de má alimentação. Sem tratamento, o risco de doença coronária antes dos 55 anos é muitas vezes superior ao normal. Com tratamento iniciado cedo, a esperança de vida é praticamente igual à de qualquer pessoa.

Quando se deve suspeitar

  • LDL acima de 190 mg/dL num adulto, sem outra causa — e sobretudo acima de 250.
  • LDL alto numa criança ou adolescente.
  • Enfarte ou AVC na família em idade jovem — homem antes dos 55, mulher antes dos 60.
  • Xantomas nos tendões ou arco corneano antes dos 45 anos.
  • Vários familiares com colesterol muito alto, de várias gerações.
Rastreio em cascata: a coisa mais útil que pode fazer pela sua família. Quando se confirma um caso, testam-se os familiares diretos — pais, irmãos, filhos. Cada um tem 50% de probabilidade de ter herdado a mesma alteração. Uma análise simples pode identificar várias pessoas de uma vez e mudar-lhes a vida antes de haver qualquer sintoma. Em Portugal, o Estudo Português de Hipercolesterolemia Familiar, no INSA, faz este trabalho desde 1999.

Lipoproteína(a): o fator que quase ninguém mede

A Lp(a) é uma partícula parecida com o LDL mas com uma cauda extra, que a torna mais inflamatória e mais trombogénica. O seu valor é quase inteiramente determinado pelos genes (>90%): não muda com a dieta, com o exercício nem com estatinas.

As recomendações europeias 2025 (ESC/EAS Focused Update 2025) dizem que se deve medir uma vez na vida a todos os adultos (idealmente no primeiro perfil lipídico). Uma vez só, porque o valor não muda. Acima de 50 mg/dL (≈105 nmol/L) é considerada um fator que agrava o risco — com maior risco quanto maior o valor — e ajuda a explicar aqueles enfartes em pessoas aparentemente sem fatores de risco nenhuns. Ajuda a reclassificar o risco sobretudo em pessoas de risco moderado ou perto de limiares de decisão.

Ainda não há medicamento aprovado que a baixe com prova de que isso reduz enfartes. Estão em ensaios de grande dimensão, com resultados esperados nos próximos anos. Por agora, o que se faz quando está alta é ser mais exigente com tudo o resto: LDL, tensão, tabaco, peso. E vale a pena avisar a família, porque também é hereditária.

O que muda sem medicamentos

Menos do que muita gente espera para o LDL, e mais do que muita gente espera para tudo o resto. Vale a pena ser honesto sobre isto: em quem tem o LDL muito alto ou já tem doença, a alimentação sozinha raramente chega ao alvo. Mas o benefício cardiovascular da dieta mediterrânica vai muito além do número do colesterol.

O que baixa mesmo o LDL

Trocar gordura saturada por insaturada. Menos carne gorda, enchidos, manteiga, natas, queijo curado, bolachas e bolos industriais; mais azeite, peixe gordo, frutos secos. É a mudança alimentar com maior efeito.

Fibra que se cola ao colesterol

Fibras solúveis — aveia, cevada, leguminosas, maçã, citrinos, psílio. Prendem os ácidos biliares no intestino e obrigam o fígado a gastar colesterol. Cerca de 5 a 10 g por dia baixam o LDL uns 5%.

Os iogurtes com esteróis

Esteróis e estanóis vegetais, 2 g por dia, baixam o LDL cerca de 7 a 10%. Funcionam mesmo. O que nunca foi demonstrado é que reduzam enfartes — por isso complementam, não substituem.

Para os triglicéridos

Cortar açúcar, refrigerantes e álcool e perder peso. Os triglicéridos são a fração que mais depressa responde — podem descer 30 a 50% em semanas.

Movimento

150 minutos por semana. Efeito modesto no LDL, bom nos triglicéridos e é a forma mais eficaz de subir o HDL.

Tabaco

Fumar baixa o HDL e oxida o LDL, tornando-o mais agressivo para a parede das artérias. Deixar de fumar sobe o HDL em semanas — é das poucas coisas que o conseguem.

Suplementos: uma nota honesta. As recomendações europeias de 2025 dizem explicitamente que suplementos e vitaminas sem eficácia demonstrada não são recomendados para reduzir risco cardiovascular. Levedura vermelha de arroz merece um aviso próprio: contém monacolina K, que é quimicamente a mesma molécula que a lovastatina — tem os mesmos riscos musculares e as mesmas interações de uma estatina, mas sem dose controlada nem vigilância médica.

Os medicamentos, família a família

Há quatro formas de baixar o colesterol. Cada família usa uma delas. 1 · FÁBRICA DO FÍGADO Travar a produção de colesterol Estatinas · Ácido bempedóico 2 · BOMBAS DO FÍGADO Aumentar as que retiram LDL do sangue Inibidores de PCSK9 · Inclisirano 3 · INTESTINO Impedir que o colesterol seja absorvido Ezetimiba · Resinas 4 · TRIGLICÉRIDOS Acelerar a queima das gorduras Fibratos · Icosapento de etilo Menos LDL a circular e menos partículas a entrar na parede das artérias A placa cresce mais devagar — e estabiliza menos enfartes, menos AVC — o motivo real do comprimido
Combinar duas famílias que atuam em pontos diferentes baixa mais o LDL — e com menos efeitos indesejados — do que forçar a dose de uma só.
Fármacos para baixar o colesterol
FamíliaQuanto baixa o LDLComo se tomaO que pode sentir
Estatinas
sinvastatina, atorvastatina, rosuvastatina, pravastatina
30% a 50%
conforme a dose
Comprimido, 1×/dia Queixas musculares (ver secção seguinte), sintomas digestivos, dores de cabeça.
Ezetimiba 15% a 20%
+24% se juntar a estatina
Comprimido, 1×/dia Muito bem tolerada. Dores de cabeça, diarreia, dor abdominal ocasionais.
Ácido bempedóico 15% a 25%
~35% com ezetimiba
Comprimido, 1×/dia Sobe o ácido úrico e pode desencadear gota. Raramente, dor tendinosa.
Inibidores de PCSK9
evolocumab, alirocumab
50% a 70% Injeção sob a pele, a cada 2 semanas ou mensal Reação no local da picada. Praticamente sem interações com outros medicamentos.
Inclisirano Mais de 50% Injeção 2×/ano, dada na consulta Reação no local da picada. A adesão deixa de ser um problema.
Fibratos
fenofibrato
Sobretudo triglicéridos
−25% a −50%
Comprimido, 1×/dia Sintomas digestivos. Risco de cálculos na vesícula.
Icosapento de etilo
ómega-3 purificado
Triglicéridos Cápsulas, 2×/dia, com comida Dores musculares e articulares. Pode causar arritmia — avise se sentir o pulso irregular.
Resinas
colestiramina, colesevelam
10% a 20% Pó ou comprimidos às refeições Obstipação e gases, frequentes. Atrapalham a absorção de outros medicamentos.
A ordem habitual é esta: estatina na dose máxima que tolerar; se não chegar ao alvo, acrescenta-se ezetimiba; se ainda não chegar, um inibidor de PCSK9 ou inclisirano. Combinar famílias diferentes chega a baixar o LDL mais de 80%.

As estatinas, sem mitos

Nenhum medicamento moderno tem tanta má fama e tanta evidência a favor ao mesmo tempo. Vale a pena separar o que está demonstrado do que circula.

As dores musculares

É a queixa que faz mais gente parar. Na prática clínica, entre 7 e 29% das pessoas referem dores ou fraqueza muscular com estatinas. Mas nos ensaios em que nem o doente nem o médico sabiam quem tomava o quê, a diferença entre a estatina e o comprimido de açúcar foi muito pequena — em vários, nem sequer significativa.

O estudo que melhor resolveu isto chamou-se SAMSON. Pegou em pessoas que já tinham desistido das estatinas por causa das dores e deu-lhes, ao longo de um ano e em meses alternados, estatina, placebo, ou nada. Os sintomas nos meses de estatina foram praticamente iguais aos dos meses de placebo — e ambos muito superiores aos meses sem comprimido nenhum. Cerca de 90% do desconforto vinha do ato de tomar o comprimido, não da molécula.

Isto não quer dizer que as dores sejam imaginadas. São reais e a pessoa sente-as mesmo. O que os estudos mostram é que a causa não costuma ser a estatina — e isso importa, porque significa que quase toda a gente que parou pode voltar a tomar. No SAMSON, metade dos participantes retomou a estatina com sucesso depois de ver os seus próprios resultados.

O que fazer se lhe doerem os músculos

  1. Não pare por sua conta. Marque uma conversa. Parar sem avisar é a via mais rápida para ficar anos sem proteção nenhuma.
  2. Peça um doseamento de CK (a enzima do músculo). Não se faz por rotina, faz-se quando há queixas — e na esmagadora maioria dos casos está normal.
  3. Suspender e reintroduzir. Parar algumas semanas e voltar a tomar mostra se os sintomas acompanham mesmo o medicamento. É o teste mais informativo que existe.
  4. Baixar a dose, ou tomar em dias alternados. Mesmo duas a três vezes por semana, uma estatina potente ainda baixa o LDL entre 12 e 38%.
  5. Trocar de estatina. Muita gente que não tolera uma tolera outra sem qualquer problema.
  6. Se mesmo assim não der, há hoje alternativas eficazes — ezetimiba, ácido bempedóico, inibidores de PCSK9. Já ninguém tem de ficar sem tratamento por não tolerar estatinas.

Quando é que a dor muscular é a sério. A rabdomiólise — destruição do músculo — é rara: cerca de 1 caso em 100 000 pessoas por ano. Mas se tiver dor muscular intensa e generalizada, fraqueza marcada, e sobretudo se a urina ficar escura, cor de coca-cola, pare o medicamento e procure atendimento urgente no mesmo dia.

Estatinas e diabetes

É verdade que as estatinas aumentam ligeiramente a probabilidade de vir a ter diabetes — em cerca de 0,2% por ano em termos absolutos, sobretudo em quem já estava à beira de a ter. Em contrapartida, previnem vários enfartes e AVC por cada caso de diabetes que antecipam. O balanço é claramente favorável, e não é motivo para parar. Acontece mais em quem já tem pré-diabetes — nesses, vigia-se a glicemia.

Estatinas e fígado

Faz-se uma análise às transaminases antes de começar e depois aos três e aos doze meses. A partir daí, não é preciso repetir por rotina — a lesão hepática grave por estatinas é raríssima, menos de 2 casos por milhão de pessoas por ano. Subidas ligeiras não obrigam a parar.

E ao contrário do que muita gente pensa, ter fígado gordo não é contraindicação. É até uma das situações em que as estatinas são consideradas seguras e provavelmente benéficas.

Estatinas e gravidez

Durante décadas foi proibição absoluta. Em 2021 a autoridade americana do medicamento retirou esse aviso máximo, reconhecendo que num pequeno grupo de mulheres com risco cardiovascular muito elevado pode compensar continuar.

Na prática, para a esmagadora maioria: suspende-se durante a gravidez e a amamentação, porque alguns meses sem tratar o colesterol não mudam nada a longo prazo. Se está a planear engravidar, fale antes — não pare sozinha nem entre em pânico se engravidar a tomar.

Interações e cuidados críticos

Quase todos os casos graves com estatinas acontecem por interação com outro medicamento — não pela estatina sozinha. Esta é a secção para mostrar na farmácia.

Sumo de toranja. Bloqueia a enzima que elimina a sinvastatina e a atorvastatina, e pode multiplicar várias vezes a quantidade que fica no sangue. Com sinvastatina, evite mesmo. A rosuvastatina e a pravastatina não têm este problema.

Combinações que exigem atenção
Com o quêPorquêO que costuma fazer-se
Antibióticos macrólidos
claritromicina, eritromicina
Travam a eliminação da estatina; risco de lesão muscular Suspender a estatina durante o antibiótico, ou escolher outro antibiótico
Antifúngicos azólicos
itraconazol, cetoconazol
O mesmo mecanismo, ainda mais marcado Contraindicado com sinvastatina
Amiodarona, verapamilo, diltiazem Sobem os níveis de sinvastatina Limitar a dose de sinvastatina, ou trocar de estatina
Ciclosporina e outros imunossupressores Sobem muito os níveis de várias estatinas Escolha e dose cuidadosamente ajustadas pelo especialista
Genfibrozil (um fibrato antigo) Combinação com estatina de risco muscular elevado Evita-se. Quando é preciso um fibrato, usa-se fenofibrato
Alguns antirretrovirais Interação com o metabolismo da estatina Escolha específica de estatina e dose
Varfarina Fibratos potenciam o efeito anticoagulante Controlo mais apertado do INR ao iniciar
Levotiroxina, digoxina, contracetivos As resinas impedem a absorção Tomar 1 hora antes ou 4 horas depois da resina
Se toma muitos medicamentos, as estatinas com menos interações são a pravastatina e a rosuvastatina, porque quase não usam a via metabólica onde a maioria das interações acontece. É uma conversa que vale a pena ter se está polimedicado.

Antes de qualquer antibiótico ou antifúngico novo, diga que toma uma estatina — na consulta e outra vez na farmácia. É uma frase que evita a maior parte dos casos graves.

O que mudou nos últimos anos

Esta é a área da farmacoterapia cardiovascular que mais se transformou. Quem desistiu do tratamento há dez anos por não tolerar uma estatina tem hoje opções que não existiam.

Injeção duas vezes por ano

Inclisirano

Silencia no fígado a instrução genética que produz a proteína PCSK9. Uma injeção, repetida aos 3 meses, e depois só de 6 em 6 meses — dada na consulta. Resolve de vez o problema do esquecimento, que é a maior causa de falha de todos os outros tratamentos.

Para quem não tolera estatinas

Ácido bempedóico

Só se ativa no fígado, não no músculo — daí o risco muscular muito menor. Em 2023, um ensaio com quase 14 000 pessoas intolerantes a estatinas mostrou que reduz mesmo enfartes e AVC, e não apenas o número da análise.

Reduções que não se conseguiam

Inibidores de PCSK9

Injeções quinzenais ou mensais que baixam o LDL 50 a 70% por cima do que a estatina já fez. Vieram permitir alvos que antes eram inalcançáveis, sobretudo na hipercolesterolemia familiar e depois de um enfarte.

Triglicéridos com prova de benefício

Icosapento de etilo

Um ómega-3 purificado, muito diferente das cápsulas de óleo de peixe do supermercado. Em pessoas de alto risco com triglicéridos altos apesar da estatina, reduziu eventos cardiovasculares.

E o que aí vem. Estão em ensaios finais fármacos que baixam a lipoproteína(a) — o primeiro tratamento para um fator de risco que até hoje não tem nenhum. Resultados esperados nos próximos anos. Nada disto está aprovado ainda, e nesta página só entra o que já se pode usar.

Quando os triglicéridos disparam

Triglicéridos entre 150 e 500 mg/dL são, sobretudo, um sinal de que há outra coisa a corrigir: peso, álcool, açúcar, diabetes descontrolada.

Acima de 500 mg/dL a conversa muda. Deixa de ser uma questão de artérias e passa a haver risco de pancreatite aguda — uma inflamação do pâncreas que é uma emergência médica. Acima de 1000 mg/dL o risco é substancial e o tratamento é urgente: suspensão total do álcool, dieta muito restrita em gordura, e medicação própria.

Sinais de pancreatite a conhecer: dor intensa na parte de cima da barriga, que atravessa para as costas, com náuseas e vómitos, muitas vezes a aliviar quando se dobra o corpo para a frente. É motivo para ir às urgências.

Quando é urgente

Ligue 112 ou vá às urgências se tiver:

  • Dor ou aperto no peito, sobretudo com esforço, a irradiar para o braço, pescoço ou mandíbula
  • Boca ao lado, braço ou perna sem força, fala arrastada — sinais de AVC
  • Falta de ar súbita
  • Dor muscular intensa e generalizada com urina escura, a tomar uma estatina
  • Dor forte na parte de cima da barriga a atravessar para as costas, com vómitos
  • Dor na barriga da perna ao andar que obriga a parar, com o pé frio e pálido

Mitos que vale a pena desfazer

O que se dizO que se sabe
"Sinto quando o colesterol está alto." Não se sente. Nunca. Os sintomas que as pessoas lhe atribuem têm sempre outra causa.
"Sou magro, não posso ter colesterol alto." Pode. A maior parte é fabricada pelo fígado, e a genética pesa muito. Há pessoas magras com hipercolesterolemia familiar grave.
"Só preciso de evitar ovos e marisco." O colesterol da comida tem um efeito modesto. O que mais sobe o LDL é a gordura saturada — carnes gordas, enchidos, lacticínios gordos e produtos de pastelaria.
"As estatinas destroem os músculos." A lesão muscular grave é rara — 1 em 100 000 por ano. As queixas ligeiras são comuns, mas em ensaios cegos aparecem quase igualmente com placebo.
"As estatinas dão demência." Não há evidência disso. As revisões sistemáticas não encontram aumento de demência — algumas sugerem até o contrário.
"Já normalizou, posso parar." Normalizou por causa do medicamento. Ao parar, o LDL volta ao valor anterior em poucas semanas.
"Colesterol é problema de velhos." A placa começa a formar-se na adolescência. Quanto mais anos de LDL alto, maior o dano acumulado — é o total ao longo da vida que conta.

Perguntas frequentes

A que horas devo tomar a estatina — de manhã ou à noite?

Depende da estatina que lhe receitaram. A sinvastatina e a pravastatina duram poucas horas no corpo e resultam melhor à noite, porque é de madrugada que o fígado fabrica mais colesterol. A atorvastatina e a rosuvastatina duram mais de um dia e podem tomar-se a qualquer hora — de manhã, à noite, com ou sem comida. Na dúvida, pergunte na farmácia e, sobretudo, escolha a hora a que não se esquece: a regularidade todos os dias vale mais do que a hora exata.

Vou ter de tomar para o resto da vida?

Na maioria dos casos, sim — porque a causa (a genética, a idade das artérias, a placa já formada) não desaparece. Em quem tem valores pouco acima do alvo e faz mudanças grandes de peso e alimentação, pode ser possível reduzir ou suspender. Essa decisão faz-se com análises, com o médico.

Esqueci-me de tomar. Faz mal?

Não. Tome logo que se lembre, no mesmo dia; se já for perto da dose seguinte, salte essa e siga o horário normal. Nunca tome duas juntas. Estes medicamentos trabalham por acumulação ao longo de meses e anos — uma falha isolada não tem consequência.

Posso beber álcool?

Com moderação, e com uma ressalva importante: o álcool sobe os triglicéridos de forma marcada. Se os tem altos, é das primeiras coisas a cortar. E se estiverem acima de 500 mg/dL, a recomendação é suspensão total pelo risco de pancreatite.

Os meus filhos devem fazer análises?

Se há na família colesterol muito alto, ou enfartes e AVC em idade jovem — homem antes dos 55, mulher antes dos 60 — sim, e não é preciso esperar pela idade adulta. A hipercolesterolemia familiar deteta-se em crianças com uma análise simples, e tratada cedo devolve uma esperança de vida normal.

Coenzima Q10 ajuda nas dores musculares?

As estatinas baixam mesmo os níveis de coenzima Q10, o que deu origem à ideia. Mas os ensaios que testaram a suplementação não mostraram benefício consistente nas queixas musculares. Não faz mal tomar, mas não conte com ela — e é preferível investir a conversa em ajustar a dose ou trocar de estatina.

Se o meu colesterol é genético, vale a pena mudar a alimentação?

Vale — mas com expectativas realistas. Na hipercolesterolemia familiar, a alimentação sozinha nunca chega ao alvo e o medicamento é indispensável. Ainda assim, tudo o que reduz o risco global — não fumar, tensão controlada, peso, exercício — continua a contar, e muito.

Fontes

  • European Society of Cardiology / European Atherosclerosis Society. 2019 Guidelines for the management of dyslipidaemias e 2025 Focused Update (Eur Heart J, 2025). Alvos de LDL por categoria de risco, recomendação de medir a Lp(a) e posição sobre suplementos.
  • ESC. 2021 Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice — SCORE2 e SCORE2-OP, e a classificação de Portugal como país de risco moderado.
  • Wood FA et al. N-of-1 Trial of a Statin, Placebo, or No Treatment to Assess Side Effects — ensaio SAMSON, N Engl J Med 2020. E Herrett E et al., StatinWISE, BMJ 2021.
  • Nissen SE et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients — CLEAR Outcomes, N Engl J Med 2023.
  • European Atherosclerosis Society. Statin-associated muscle symptoms: impact on statin therapy — Consensus Panel Statement, Eur Heart J 2015.
  • FDA. Drug Safety Communication: FDA requests removal of strongest warning against using cholesterol-lowering statins during pregnancy, julho de 2021.
  • Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. 1.º Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF) — prevalência e controlo da hipercolesterolemia em Portugal. E Estudo Português de Hipercolesterolemia Familiar.
  • European Medicines Agency. Resumos das Características do Medicamento de Repatha, Praluent, Leqvio, Nilemdo, Vazkepa e Evkeeza.
  • Soares MA. Terapêutica das Dislipidemias — Farmacoterapia, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; os valores clínicos foram integralmente atualizados.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC/EAS 2019 (2025 Focused Update), ESC 2021.