Insuficiência cardíaca
O nome assusta mais do que devia. Não quer dizer que o coração vai parar — quer dizer que já não consegue bombear tudo o que lhe chega, e que o líquido a mais se acumula onde dá sintomas. É uma doença crónica, e é das que mais mudou de tratamento na última década.
Uma bomba que não dá vazão
O coração é uma bomba. Recebe o sangue que volta do corpo e empurra-o outra vez para a frente. Na insuficiência cardíaca, essa bomba enfraqueceu — ou ficou rígida — e passa a chegar-lhe mais sangue do que consegue mandar embora.
O que sobra fica retido para trás. E é isso, e não o coração em si, que dá os sintomas.
Fração de ejeção: o número que divide os tipos
De cada vez que bate, o coração não expulsa todo o sangue que tem dentro — expulsa uma parte. Essa percentagem chama-se fração de ejeção, e num coração saudável anda à volta de 55 a 70%.
| Tipo | Fração de ejeção | O que se passa |
|---|---|---|
| Fração reduzida | ≤ 40% | O músculo perdeu força. É o tipo com mais tratamento provado — as quatro famílias desta página. |
| Ligeiramente reduzida | 41–49% | Zona intermédia. Trata-se em grande parte como a anterior. |
| Preservada | ≥ 50% | O coração aperta bem mas está rígido e não enche como devia. Mais comum em mulheres, idosos, hipertensos e diabéticos. |
O que se sente
Os sintomas principais
Falta de ar a fazer coisas que antes não cansavam · cansaço desproporcionado · pernas e tornozelos inchados, sobretudo ao fim do dia · acordar de noite com falta de ar · precisar de mais almofadas para dormir · tosse seca noturna · urinar mais vezes de noite · barriga inchada e falta de apetite.
Dois sinais que valem por muitos
Precisar de mais almofadas para conseguir respirar deitado, e acordar a meio da noite a sufocar e ter de se sentar. Não são "má postura" nem "ansiedade" — são congestão pulmonar, e são dos sinais mais específicos que existem.
Quanto é que limita: as classes
Os médicos usam quatro classes para descrever quanto a doença limita o dia a dia. Vale a pena saber em qual se reconhece, porque muda decisões:
| Classe | Em palavras simples |
|---|---|
| I | Tem a doença mas não sente nada nas atividades habituais. Vive normalmente. |
| II | Bem em repouso. Subir um lanço de escadas ou andar depressa já dá falta de ar ou cansaço. |
| III | Bem em repouso, mas esforços pequenos — vestir-se, andar dentro de casa — já provocam sintomas. |
| IV | Sintomas mesmo parado. Qualquer esforço piora. |
A balança: o alarme que ninguém usa
Esta é a parte prática mais importante da página inteira. Dois quilos de líquido acumulam-se antes de dar falta de ar. A balança apanha-os; o corpo ainda não.
Alarme da balança
Variação em 3 diasComo se pesa bem
- Todos os dias, à mesma hora — de manhã, depois de urinar e antes do pequeno-almoço.
- Com a mesma roupa, ou sem ela, e sempre na mesma balança.
- Aponte. Num caderno, no telemóvel, num calendário na cozinha. O padrão ao longo dos dias diz muito mais do que o número de hoje.
- Leve o registo à consulta. Vale mais do que qualquer descrição de memória.
Porque é que acontece
- Enfarte do miocárdio. A causa mais frequente nos homens — o músculo que morreu não volta a contrair, e o resto tem de compensar.
- Tensão alta mantida durante anos. A causa mais frequente nas mulheres. O coração engrossa a empurrar contra pressão a mais, e acaba rígido.
- Doenças das válvulas.
- Arritmias, sobretudo fibrilhação auricular com frequência alta e mantida.
- Diabetes.
- Álcool em excesso, durante anos — e é das poucas causas em que parar pode fazer o coração recuperar.
- Infeções do músculo cardíaco (miocardite), algumas quimioterapias, e causas genéticas.
As quatro famílias que prolongam a vida
Em 2010, tratava-se insuficiência cardíaca com dois ou três medicamentos, acrescentados um de cada vez ao longo de meses. Hoje são quatro famílias, e instituem-se todas em poucas semanas, em doses baixas, subindo depois em paralelo. A diferença em anos de vida é grande.
| Família | Nomes que pode reconhecer | O que pode sentir |
|---|---|---|
| IECA, ARA ou sacubitril/valsartan | ramipril, enalapril, losartan, valsartan, Entresto | Tosse seca (com os IECA), tonturas ao levantar. O sacubitril/valsartan é hoje preferido em muitos doentes por ser mais eficaz. |
| Beta-bloqueadores | bisoprolol, carvedilol, nebivolol | Cansaço nas primeiras semanas — que passa. Pulso mais lento, extremidades frias. |
| Antagonistas da aldosterona | espironolactona, eplerenona | Subida do potássio (obriga a análises). A espironolactona pode causar aumento e dor mamária nos homens; a eplerenona não. |
| Gliflozinas | dapagliflozina, empagliflozina | Urinar mais, infeções genitais por fungos. Funcionam tenha ou não diabetes — foi a grande novidade da última década. |
O cansaço das primeiras semanas com o beta-bloqueador é a armadilha clássica. Muita gente sente-se pior no início e desiste — precisamente do medicamento que mais lhe ia prolongar a vida. Esse efeito passa em algumas semanas, e o benefício aparece depois. Diga que se sente pior, mas não pare por sua conta.
Os diuréticos: alívio, não tratamento
A furosemida e as suas primas tiram o líquido a mais. São o que faz passar a falta de ar e desinchar as pernas — e por isso são os que se sentem a trabalhar.
Mas convém saber a diferença: os diuréticos aliviam sintomas, não prolongam a vida. As quatro famílias da secção anterior é que fazem isso, e são exatamente as que não se sentem. Usa-se a dose mais baixa que mantenha a pessoa sem congestão.
Outros medicamentos que podem entrar
- Ferro por veia. A falta de ferro é muito comum na insuficiência cardíaca, mesmo sem anemia, e corrigi-la melhora bastante os sintomas e a capacidade de esforço. É uma das intervenções com melhor retorno — e frequentemente esquecida. Pergunte se já lhe dosearam o ferro.
- Ivabradina. Para quem mantém o pulso acelerado apesar do beta-bloqueador na dose máxima tolerada.
- Vericiguato. Para quem teve um agravamento recente apesar do tratamento completo.
- Digoxina. Sobretudo quando há fibrilhação auricular difícil de controlar. Exige cuidado com a dose e com a função renal.
- Finerenona. Cada vez mais usada em quem tem também diabetes e doença renal, e com evidência recente também na insuficiência cardíaca de fração preservada.
Cuidados críticos
Medicamentos comuns que pioram a insuficiência cardíaca — e que muita gente toma sem pensar:
- Anti-inflamatórios (ibuprofeno, diclofenac, naproxeno). Retêm sal e água e anulam o efeito do diurético. São provavelmente a causa evitável mais frequente de descompensação. Para dores, paracetamol.
- Corticoides — retêm líquido.
- Verapamilo e diltiazem — travam ainda mais um coração já enfraquecido.
- Pioglitazona, usada na diabetes — retém líquido.
- Alguns antiarrítmicos e algumas medicações para a gripe com descongestionantes.
- Substitutos do sal vendidos como "sal light" — a maioria é rica em potássio, e somada à espironolactona pode causar hipercaliemia perigosa.
Diga sempre que tem insuficiência cardíaca antes de comprar qualquer coisa na farmácia, mesmo sem receita.
Trocar um IECA por sacubitril/valsartan
Exige 36 horas de intervalo entre o último comprimido de um e o primeiro do outro. Se os dois se sobrepõem, o risco de angioedema — inchaço da língua e da garganta — sobe muito. Não é uma formalidade: cumpra o intervalo à risca.
O potássio
A espironolactona pode fazer subir o potássio a níveis perigosos para o ritmo do coração. Faz-se análise antes de iniciar e depois periodicamente. Evite suplementos de potássio e substitutos do sal.
A creatinina que sobe ao início
É esperado que os valores dos rins piorem um pouco quando se começa um IECA ou uma gliflozina. Na maioria dos casos não é motivo para parar — estabiliza, e a longo prazo o rim fica protegido. Quem decide é o médico, com análises.
Vacinas
Gripe todos os anos, e pneumocócica conforme indicação. Uma infeção respiratória é uma das causas mais frequentes de descompensação e de internamento.
Sal e líquidos: o que mudou
Durante décadas, quem tinha insuficiência cardíaca ouvia duas ordens: quase nada de sal, e litro e meio de líquidos por dia, sem exceção. Isso mudou.
Um consenso europeu de 2024 reviu a evidência e concluiu que a restrição rígida e universal nunca demonstrou reduzir internamentos nem mortes — e que, pelo contrário, se associa a pior qualidade de vida, mais sede e pior adesão ao resto do tratamento.
Menos de 5 g por dia — o mesmo que se recomenda à população em geral. Não é preciso comer sem sal nenhum. O que conta é evitar as grandes fontes escondidas: pão, enchidos, queijos, sopas de pacote, conservas.
Ingestão normal, guiada pela sede — tipicamente 1,5 a 2,5 litros por dia. A restrição apertada fica reservada para casos selecionados, de doença grave ou sódio baixo no sangue, e é o médico que a indica.
Viver com insuficiência cardíaca
- Exercício faz bem. Não é perigoso — é tratamento. A reabilitação cardíaca melhora a capacidade física e a qualidade de vida. O medo de se esforçar é, em si, um dos maiores obstáculos.
- Durma com a cabeceira elevada se tem falta de ar deitado. Dois travesseiros ou uns calços debaixo da cabeceira da cama.
- Álcool com muita moderação, e nenhum se a causa foi alcoólica.
- Cuidado com o calor extremo. Perde-se muito líquido e a tensão baixa — pode ser preciso ajustar o diurético em vagas de calor. Combine isso antes do verão.
- Viagens longas de avião: levante-se e ande, e leve a medicação na bagagem de mão.
- Sexo. Em regra é seguro em quem consegue subir dois lanços de escadas sem queixas. Atenção aos medicamentos para a ereção se toma nitratos.
- Depressão e ansiedade são frequentes e pioram tudo o resto. Trata-se — diga na consulta.
Quando entram os dispositivos
Desfibrilhador implantável
Um aparelho pequeno colocado sob a pele que vigia o ritmo e corrige automaticamente uma arritmia que poderia ser fatal. Considera-se quando a fração de ejeção se mantém muito baixa apesar de pelo menos três meses de tratamento completo.
Ressincronização
Um pacemaker especial, com um elétrodo a mais, para quando os dois lados do coração deixaram de bater em sincronia — visível no eletrocardiograma. Fá-los voltar a trabalhar em conjunto, e em alguns doentes melhora muito a função.
Quando é urgente
Ligue 112 se tiver:
- Falta de ar intensa em repouso, ou que não o deixa estar deitado
- Espuma rosada ao tossir
- Lábios ou dedos azulados
- Dor no peito
- Desmaio, ou palpitações muito rápidas com mal-estar
- Confusão de instalação rápida
Contacte a sua equipa no próprio dia se:
- Ganhou 2 kg ou mais em 3 dias
- As pernas ou a barriga incharam mais do que o habitual
- Precisa de mais almofadas do que antes para dormir
- Passou a cansar-se com esforços que antes fazia sem problema
- Está a urinar bastante menos
Em Portugal
O estudo de referência nacional encontrou uma prevalência de 4,36% na população adulta, com uma subida acentuada com a idade: cerca de 1,4% entre os 25 e os 49 anos, mas 12,7% dos 70 aos 79 e 16,1% acima dos 80.
As projeções apontam para perto de meio milhão de pessoas em Portugal nas próximas décadas, à medida que a população envelhece. Os internamentos por insuficiência cardíaca têm vindo a descer, mas continua a ser uma das principais causas de internamento acima dos 70 anos — e a Direção-Geral da Saúde identifica-a como um dos maiores desafios da próxima década.
Mitos que vale a pena desfazer
| O que se diz | O que se sabe |
|---|---|
| "Insuficiência cardíaca é o coração a parar." | É o coração a não dar vazão. Muita gente vive anos com boa qualidade de vida, com tratamento. |
| "Não posso fazer esforço nenhum." | É ao contrário. O exercício orientado melhora a capacidade física e a qualidade de vida. |
| "Tenho de beber o mínimo possível." | Já não. A restrição rígida universal foi abandonada em 2024 por falta de benefício. |
| "Estou melhor, já posso parar a medicação." | Está melhor por causa dela. Parar faz voltar os sintomas, muitas vezes pior do que antes. |
| "O diurético é o medicamento mais importante." | É o que mais se sente, não o mais importante. Quem prolonga a vida são os outros quatro. |
| "Um ibuprofeno de vez em quando não faz mal." | Faz. É das causas evitáveis mais frequentes de descompensação e de ida às urgências. |
Perguntas frequentes
A insuficiência cardíaca tem cura?
Na maioria dos casos não se cura, controla-se — e controla-se bem. Mas há exceções reais: quando a causa é uma válvula que se corrige, uma arritmia que se trata, ou álcool que se deixa, o coração pode recuperar função, às vezes por completo. Hoje reconhece-se formalmente que a doença pode melhorar e entrar em remissão.
Porque é que tomo tantos comprimidos?
Porque cada uma das quatro famílias atua num mecanismo diferente, e o efeito das quatro juntas é muito maior do que o de qualquer uma sozinha. Se a quantidade é um problema — de gestão ou de custo — diga: há associações fixas e há formas de simplificar.
Posso viajar de avião?
Em geral sim, se estiver estável. Leve a medicação na bagagem de mão, levante-se e ande em voos longos, e leve um relatório clínico. Se tem sintomas em repouso ou teve uma descompensação recente, fale antes com o seu médico.
Devo dormir sentado?
Se precisa de dormir sentado para respirar, isso é um sinal de congestão e deve ser comunicado — não é uma solução, é um sintoma. Entretanto, elevar a cabeceira da cama ajuda mais do que empilhar almofadas, que escorregam durante a noite.
Posso tomar suplementos ou chás?
Diga sempre o que toma. Vários produtos naturais interagem com a digoxina ou com anticoagulantes, e o alcaçuz retém sal e água. Os substitutos de sal ricos em potássio são especialmente perigosos com espironolactona.
Fontes
- European Society of Cardiology. 2021 Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure e 2023 Focused Update (Eur Heart J 2023;44:3627) — alargamento das gliflozinas a todos os tipos, ferro endovenoso, e instituição rápida das quatro famílias.
- Mullens W. et al. Dietary sodium and fluid intake in heart failure: a clinical consensus statement of the Heart Failure Association of the ESC. Eur J Heart Fail 2024 — origem do abandono da restrição rígida de sal e líquidos.
- Heart Failure Association da ESC — heartfailurematters.org, portal para doentes: limiar de 2 kg em 3 dias.
- Abdin A. et al. Pharmacologic pitfalls in heart failure. Eur J Heart Fail 2025 — lista de medicamentos a evitar.
- Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Pocket guidelines de insuficiência cardíaca, 2025.
- Ceia F. et al. — estudo EPICA, e Insuficiência cardíaca em números: estimativas para o século XXI em Portugal, Rev Port Cardiol.
- Soares MA. Terapêutica da Insuficiência Cardíaca — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; a farmacologia foi integralmente reescrita.
Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2021 (2023 Focused Update), Sociedade Portuguesa de Cardiologia 2025.