O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Coração e circulação · 01

Doença coronária

As artérias que alimentam o próprio coração vão-se estreitando com placa. Enquanto o sangue ainda passa, o aviso é uma dor no peito ao esforço. Quando uma placa rompe e a artéria fecha, é um enfarte — e passa a contar-se o tempo em minutos.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.

O coração também precisa de ser alimentado

O coração bombeia sangue para todo o corpo, mas não se serve do sangue que tem lá dentro. Tem uma canalização própria — as artérias coronárias — que o rodeiam por fora como uma coroa, e é daí que lhe chega o oxigénio.

São artérias finas e trabalham num músculo que nunca descansa. Quando a placa as estreita, o coração passa a receber menos oxigénio do que precisa. Chama-se isquemia: tecido vivo a trabalhar com falta de combustível.

Angina e enfarte: a diferença que interessa

ANGINA ESTÁVEL músculo Passa em repouso, falta ao esforço. Dói a subir escadas ou a andar depressa, e passa em poucos minutos ao parar. O músculo queixa-se — mas sobrevive. ENFARTE músculo A placa rompeu e o coágulo fechou tudo. Dói em repouso, não passa, e vai a mais. Cada minuto conta. O músculo morre — e não volta. A diferença que interessa não é a intensidade da dor. É se passa ao parar.
Angina é um aviso: o músculo fica sem oxigénio quando lhe pedem esforço, mas recupera. Enfarte é a artéria fechada e o músculo a morrer — e é por isso que uma é consulta e a outra é 112.

A pergunta que separa as duas coisas não é quanto dói — é se passa ao parar. A angina estável é previsível: aparece com o mesmo tipo de esforço, dura poucos minutos, alivia com repouso ou com um nitrato debaixo da língua.

Deixa de ser estável — e passa a ser urgência — quando: aparece em repouso; dura mais de 15 a 20 minutos; não alivia com o nitrato; ou passou a aparecer com esforços muito menores do que antes. Isto chama-se angina instável e trata-se como um enfarte até prova em contrário.

O que fazer numa dor no peito

Esta é a secção que vale a pena saber de cor, e ensinar a quem vive consigo.

A Via Verde Coronária, ao minuto 0 minSintomaDor no peitoque não passalogoLigar 112Nunca ir decarro nem esperar< 10 minECG feitoA ambulância transmiteantes de chegar< 120 minArtéria reabertaAngioplastia, com asala já pronta Em 2021, só 25% das angioplastias de urgência em Portugal chegaram por esta via. As outras perderam tempo.
A ambulância não é um táxi mais caro: leva desfibrilhador, faz o eletrocardiograma a caminho e avisa o hospital, que prepara a sala antes de o doente chegar.
  1. Pare o que está a fazer e sente-se. Se tem nitrato de resgate prescrito, use-o sentado — nunca de pé, porque pode fazer perder os sentidos.
  2. Se ao fim de 5 minutos não passou, ligue 112. Não espere pela segunda dose, não espere para ver, não telefone primeiro à família.
  3. Diga ao operador que é uma dor no peito. Essa palavra ativa a Via Verde Coronária. Diga também que medicamentos toma — e sobretudo se tomou nas últimas 24 a 48 horas algum comprimido para a ereção, porque isso muda o que lhe podem dar.
  4. Siga as instruções do operador e não tome nada por sua conta. É ele quem lhe dirá se deve mastigar uma aspirina.
  5. Não vá de carro. Nem conduzido por alguém.
  6. Abra a porta de casa e fique acompanhado, se possível.
Porque é que a ambulância é melhor do que o carro mais rápido. Nas primeiras horas de um enfarte, o maior perigo não é a artéria fechada — é uma arritmia súbita que pára o coração. A ambulância leva desfibrilhador e alguém que o sabe usar. Além disso faz o eletrocardiograma a caminho e transmite-o, o que permite ao hospital ter a sala de cateterismo pronta quando a maca entra.

Em Portugal, o objetivo é ter o eletrocardiograma feito em menos de 10 minutos após o primeiro contacto e a artéria reaberta em menos de 120 minutos desde o diagnóstico. Em 2021, porém, só um quarto das angioplastias de urgência chegou por esta via — a maioria das pessoas foi de carro, e perdeu tempo que não se recupera.

Nem sempre é uma dor no peito

A imagem clássica — homem que leva a mão ao peito e cai — descreve mal a maioria dos casos.

O que costuma ser

Aperto, peso ou ardor no meio do peito, mais do que uma pontada. Pode irradiar para o braço esquerdo, para os dois braços, para o pescoço, a mandíbula, as costas ou a boca do estômago. Frequentemente com suores frios, náuseas, falta de ar e uma sensação de mal-estar difícil de descrever.

O que raramente é

Uma dor muito localizada que se aponta com um dedo. Uma dor que muda com a posição ou que piora ao carregar no peito. Uma dor de segundos. Nada disto exclui, mas torna menos provável.

Quando o enfarte se disfarça

  • Mulheres. A dor no peito continua a ser o sintoma mais frequente também nas mulheres — mas os sintomas acompanhantes (falta de ar, cansaço extremo, náuseas, dor nas costas ou na mandíbula) são mais vezes o que domina o quadro. O resultado é diagnóstico mais tardio e mais mortes evitáveis.
  • Pessoas com diabetes. Podem ter enfartes com pouca ou nenhuma dor, atribuídos à neuropatia. Falta de ar súbita e inexplicada, ou um cansaço novo e marcado, merecem a mesma atenção que uma dor.
  • Idosos. Muitas vezes apresentam-se com confusão, desmaio, fraqueza ou falta de ar, sem dor nenhuma.
O enfarte silencioso é mais comum do que parece: estima-se que 22 a 35% de todos os enfartes passem despercebidos e só sejam descobertos mais tarde, num eletrocardiograma de rotina. É outra razão para não desvalorizar sintomas vagos em quem tem fatores de risco.

Como se investiga

ExamePara que serve
EletrocardiogramaRápido e indolor. Mostra se há músculo em sofrimento agora e ajuda a decidir a urgência.
Troponinas
análise ao sangue
Detetam lesão do músculo cardíaco. É o exame que confirma um enfarte, e repete-se para ver a evolução.
Prova de esforçoAndar na passadeira com o coração monitorizado, para ver se aparece isquemia com o esforço.
EcocardiogramaEcografia do coração: como bombeia, se há zonas paradas, como estão as válvulas.
TC coronáriaUma espécie de fotografia das coronárias sem entrar no corpo. Muito boa para excluir doença.
Cateterismo
coronariografia
Um cateter fino, em geral pelo pulso, com contraste. Mostra exatamente onde estão os apertos — e permite tratá-los na mesma sessão.

O que acontece no hospital

Angioplastia e stent

Um balão insuflado dentro do aperto abre a artéria, e uma pequena malha metálica — o stent — fica lá a manter o canal aberto. É o tratamento de eleição no enfarte, e faz-se pelo pulso na maioria dos casos, com o doente acordado.

Cirurgia de bypass

Constrói-se um desvio com uma veia da perna ou uma artéria do peito, contornando o aperto. Prefere-se quando há muitas artérias doentes, apertos em locais difíceis, ou em algumas pessoas com diabetes.

Fibrinólise

Um medicamento que dissolve o coágulo, dado quando não é possível chegar a uma sala de cateterismo dentro do tempo. Ganha tempo até à angioplastia.

O stent não cura

Abre aquele aperto. A doença de fundo continua em todas as outras artérias — e é por isso que a medicação depois não é opcional. Muita gente sai do hospital a sentir-se curada e é aí que começa o problema.

Os medicamentos, e para que serve cada um

Depois de um diagnóstico de doença coronária a lista de comprimidos costuma crescer de repente. Ajuda muito saber que eles fazem duas coisas diferentes.

A angina alivia de duas maneiras: pedir menos ao coração, ou fazer chegar-lhe mais sangue. PEDIR MENOS Bater mais devagar e com menos força Beta-bloqueadores · Ivabradina FAZER CHEGAR MAIS Alargar as artérias do coração Nitratos · Antagonistas do cálcio ALIVIAR A CARGA Reduzir a pressão contra a qual empurra Nitratos · IECA GASTAR MELHOR Ajudar o músculo a poupar oxigénio Trimetazidina · Ranolazina O músculo deixa de ficar sem oxigénio menos crises, mais distância antes de doer Estes aliviam os sintomas. Quem evita o enfarte é outro grupo: antiagregante + estatina + controlo da tensão
Vale a pena separar os dois grupos: uns tiram a dor, outros prolongam a vida. São os que não se sentem a fazer nada que fazem a maior diferença.
Os dois grupos
FamíliaServe paraNota
Antiagregante
aspirina, clopidogrel, ticagrelor, prasugrel
Evitar o enfarte Não sente nada a tomá-lo. É o mais importante da lista.
EstatinaEvitar o enfarte Estabiliza a placa. Alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL.
IECA ou ARAEvitar o enfarte Sobretudo se o coração ficou enfraquecido, ou se tem tensão alta ou diabetes.
Beta-bloqueadorOs dois Alivia a angina e protege o coração enfraquecido.
NitratosTirar a dor De resgate, debaixo da língua, ou de longa duração.
Antagonistas do cálcioTirar a dor Alternativa ou complemento ao beta-bloqueador.
Ivabradina, ranolazina, trimetazidina, nicorandil Tirar a dor Segunda linha, quando os primeiros não chegam ou não são tolerados.
A distinção mais útil que pode levar desta página: os medicamentos que sente a fazer efeito são os que lhe tiram a dor. Os que não sente a fazer nada são os que lhe prolongam a vida. São exatamente esses que as pessoas param.

Antiagregantes: o mais importante da lista

As plaquetas são as células que fazem os coágulos. Quando uma placa rompe, são elas que se juntam e fecham a artéria. Os antiagregantes tornam-nas menos pegajosas.

Depois de um stent ou de um enfarte, é habitual tomar dois ao mesmo tempo — aspirina mais um segundo — durante um período. Chama-se dupla antiagregação.

Não pare por sua conta. Nunca. Nos primeiros meses depois de um stent, a interrupção da dupla antiagregação é a principal causa evitável de trombose do stent — a artéria fecha de repente, muitas vezes com um enfarte extenso ou morte súbita, e pode acontecer em poucos dias. Se algum médico ou dentista lhe disser para parar, peça que fale primeiro com o seu cardiologista.

Quanto tempo dura a dupla antiagregação

O padrão é 12 meses depois de um enfarte, mas isso deixou de ser uma regra fixa. Hoje o tempo é ajustado a cada pessoa: em quem tem risco de hemorragia elevado pode encurtar-se para 1 a 6 meses; em quem tem risco alto de novo evento pode prolongar-se. Depois disso fica quase sempre um antiagregante, para a vida.

Situações práticas

  • Ir ao dentista. Para uma extração simples, a recomendação é não suspender — o risco de trombose é maior do que o de sangrar, e a hemorragia local controla-se com medidas do próprio dentista. Avise que toma antiagregantes.
  • Cirurgia programada. Aí sim, pode ser preciso suspender alguns dias antes — mas é uma decisão combinada entre o cirurgião e o cardiologista, nunca isolada. Se possível, adia-se a cirurgia para depois do período crítico.
  • Anti-inflamatórios. Ibuprofeno, diclofenac e semelhantes aumentam muito o risco de hemorragia digestiva quando somados a antiagregantes — e, depois de um enfarte, aumentam também o risco cardiovascular. Para dores, prefira paracetamol e pergunte na farmácia antes de comprar seja o que for.
  • Protetor do estômago. É frequente e correto. Há uma interação conhecida entre o clopidogrel e o omeprazol — discutida quanto à sua importância real, mas por precaução costuma preferir-se o pantoprazol. Não decida sozinho: fale com o seu médico ou farmacêutico.
  • Esqueceu-se de uma dose? Tome assim que se lembrar, salvo se já estiver perto da seguinte. Nunca tome duas juntas. Se os esquecimentos são frequentes, diga — há esquemas mais simples.
  • Sinais para comunicar: fezes pretas como alcatrão, vómito com sangue ou "borras de café", urina escura avermelhada, nódoas negras muito fáceis, ou uma hemorragia que não pára. Estes são motivo para contacto no próprio dia.

Nitratos: como usar o de resgate

O nitrato debaixo da língua é o extintor da angina. Vale a pena saber usá-lo bem, porque muita gente o usa mal ou deixa-o estragar-se na gaveta.

  • Sente-se antes de tomar. Baixa a tensão e pode causar tonturas ou desmaio se estiver de pé.
  • Debaixo da língua, a dissolver — não se engole nem se mastiga.
  • Se ao fim de 5 minutos não aliviou, ligue 112. Siga depois as instruções do operador quanto a repetir a dose.
  • A dor de cabeça é esperada nas primeiras utilizações e costuma passar. É sinal de que o medicamento está ativo.
  • Verifique o prazo e guarde-o bem. Os comprimidos perdem eficácia depois de aberto o frasco; o spray dura mais. Tenha-o sempre consigo, não em casa.
  • Pode usá-lo antes de uma atividade que sabe que costuma desencadear a dor — subir uma rampa, por exemplo. Fale com o seu médico sobre isso.

Nitratos e comprimidos para a ereção: nunca juntos.

O sildenafil, o tadalafil e o vardenafil dilatam os vasos pelo mesmo caminho que os nitratos. Juntos podem provocar uma queda de tensão grave, que não responde ao tratamento habitual e pode ser fatal. Os intervalos mínimos são:

  • Sildenafil e vardenafil — pelo menos 24 horas antes de qualquer nitrato
  • Tadalafil — pelo menos 48 horas, porque dura muito mais tempo no corpo

Se tiver dor no peito depois de tomar um destes, diga-o ao 112 e à equipa das urgências. Não é embaraço — é informação que lhes evita dar-lhe um medicamento perigoso. Há alternativas para tratar a dor.

Os nitratos de longa duração precisam de um intervalo livre. Se o corpo os tem no sangue 24 horas por dia, deixa de responder — chama-se tolerância. Por isso o esquema habitual deixa 8 a 12 horas por dia sem o medicamento, em geral durante a noite. Se lhe disseram para tomar de manhã e à hora do almoço e lhe pareceu estranho, é por isto.

Cuidados críticos

Nunca parar o beta-bloqueador de repente

A suspensão brusca pode provocar um efeito de ressalto, com aumento da frequência cardíaca, angina e risco de enfarte. Se tiver de parar, faz-se a descer a dose ao longo de dias ou semanas.

Trimetazidina e movimentos

Pode causar sintomas parecidos com a doença de Parkinson — tremor, lentidão, dificuldade em andar. Está contraindicada em quem já tem Parkinson, e se estes sintomas aparecerem deve suspender-se definitivamente.

Nicorandil e úlceras

Pode causar úlceras na boca, no intestino, na pele ou nos olhos, mesmo após anos de tratamento, e que não respondem aos tratamentos habituais. Qualquer úlcera persistente deve ser comunicada.

Anti-inflamatórios depois de um enfarte

Aumentam o risco cardiovascular e o de hemorragia. Não são proibidos em absoluto, mas exigem decisão médica. Para dores comuns, paracetamol.

Sumo de toranja

Interfere com a sinvastatina, a atorvastatina, o verapamilo e a ranolazina, entre outros. Evite se toma algum destes — veja a página das dislipidemias.

Antibióticos e antifúngicos novos

Diga sempre o que toma antes de começar um antibiótico. Vários interagem com a estatina, com a ranolazina e com a ivabradina.

Reabilitação cardíaca

É um programa supervisionado de exercício, educação e apoio, feito depois de um enfarte ou de uma cirurgia. Tem evidência sólida de que reduz mortalidade cardiovascular e reinternamentos, e melhora bastante a capacidade física e a confiança.

Em Portugal continua a ser muito subutilizada: a maioria das pessoas que tinha indicação nunca chega a ser referenciada. Se teve um evento coronário e ninguém lhe falou nisto, pergunte. É das intervenções com melhor relação entre esforço e benefício que existem — e o medo de fazer esforço depois de um enfarte é, em si, um dos maiores obstáculos à recuperação.

Voltar à vida normal

Quando posso…Em geral
Voltar a andar e fazer exercício Começa-se logo nos primeiros dias, de forma gradual e orientada. O repouso prolongado faz mal.
Retomar a atividade sexual É um esforço físico moderado — em regra pode retomar-se quando já consegue subir dois lanços de escadas sem queixas, tipicamente após uma a duas semanas num caso não complicado. Confirme com o seu médico, sobretudo por causa dos nitratos.
Conduzir Depende do evento, do resultado do tratamento e da força do coração. Há regras diferentes para cartas profissionais. Pergunte antes de pegar no volante.
Voltar ao trabalho Muito variável: um trabalho sedentário retoma-se muito mais cedo do que um de esforço físico ou de condução profissional.
Viajar de avião Em geral algumas semanas depois de um evento não complicado. Leve a medicação na bagagem de mão e um relatório clínico.
A ansiedade e a depressão são frequentes depois de um enfarte — e não são fraqueza. Afetam a recuperação e a adesão ao tratamento de forma medível. Se anda em baixo, com medo de se esforçar ou a dormir mal há semanas, diga na consulta. Trata-se.

Mitos que vale a pena desfazer

O que se dizO que se sabe
"Puseram-me um stent, estou curado." O stent abriu um aperto. A doença continua nas outras artérias — e a medicação é o que a trava.
"Enfarte é dor de peito forte, sempre." Entre 22 e 35% dos enfartes passam despercebidos. Em mulheres, diabéticos e idosos, a apresentação é frequentemente atípica.
"É melhor levar de carro, é mais rápido." A ambulância leva desfibrilhador, faz o eletrocardiograma a caminho e avisa o hospital. Ganha-se tempo real, não se perde.
"Depois de um enfarte não se pode fazer esforço." É ao contrário: o exercício orientado é parte do tratamento e reduz a mortalidade.
"Se não me dói nada, posso parar os comprimidos." Os que evitam o enfarte nunca se sentem a trabalhar. Parar é o erro mais frequente e o mais caro.
"Aspirina previne o enfarte, toda a gente devia tomar." Em quem já teve doença, sim. Em pessoas saudáveis, o benefício não compensa o risco de hemorragia — e hoje não se recomenda por rotina.

Perguntas frequentes

Vou ficar com o stent para sempre? Apita nos aeroportos?

Sim, fica para sempre — o tecido da artéria cresce por cima dele nas primeiras semanas. Não apita nos detetores de metais e não impede fazer ressonância magnética na esmagadora maioria dos casos. Ainda assim, ande com o cartão do stent na carteira.

Posso beber café?

Sim, com moderação. O café em quantidades habituais não aumenta o risco cardiovascular. Se lhe provoca palpitações desagradáveis, reduza — mas não é uma proibição.

E álcool?

A ideia de que o vinho protege o coração não se aguentou nos estudos mais recentes. Não há uma quantidade que se possa recomendar como benéfica. Se bebe, mantenha pouco; e se tem insuficiência cardíaca ou toma anticoagulantes, fale com o médico.

Posso fazer sexo depois de um enfarte?

Pode, e a maioria das pessoas retoma sem problema. A regra prática é a capacidade de subir dois lanços de escadas sem queixas. A questão importante são os medicamentos para a ereção: se toma nitratos, mesmo que só de resgate, não os pode combinar — fale com o seu médico, porque há alternativas e há esquemas que permitem compatibilizar as duas coisas com segurança.

Porque é que continuo a ter dores no peito depois do stent?

Pode ter várias causas: outras artérias com apertos, doença dos vasos muito pequenos que o cateterismo não vê, espasmo, ou uma causa não cardíaca — muscular ou do estômago. Não desvalorize nem assuma que é da cabeça: leve à consulta, porque há tratamento para quase todas.

Os meus filhos têm mais risco?

Se teve o evento em idade jovem — homem antes dos 55, mulher antes dos 60 — sim, e é razão para os filhos fazerem perfil lipídico e avaliação de risco mais cedo. Vale também a pena investigar hipercolesterolemia familiar e medir a lipoproteína(a).

Fontes

  • European Society of Cardiology. 2024 Guidelines for the management of chronic coronary syndromes, Eur Heart J 2024;45:3415.
  • European Society of Cardiology. 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes, Eur Heart J 2023;44:3720 — primeira edição a juntar STEMI e NSTEMI num só documento, e a flexibilizar a duração da dupla antiagregação.
  • Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 003/2025, de 07/03/2025 — Via Verde Coronária no adulto. Origem dos tempos-alvo e do dado sobre a proporção de angioplastias primárias que chegam por esta via.
  • Kloner RA et al. e documentos de consenso sobre a interação entre nitratos e inibidores da fosfodiesterase 5 — intervalos de segurança de 24 e 48 horas.
  • European Medicines Agency. Revisão de segurança da trimetazidina (2012) e comunicações de segurança sobre nicorandil.
  • Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Registo Nacional de Síndromes Coronárias Agudas (ProACS), e Revista Portuguesa de Cardiologia sobre reabilitação cardíaca em Portugal.
  • Soares MA. Doença Arterial Coronária — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; os valores clínicos foram integralmente atualizados.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2024 (síndromes coronárias crónicas), ESC 2023 (síndromes coronárias agudas), DGS Norma n.º 003/2025.