Doença arterial periférica
A mesma placa que entope as artérias do coração entope também as das pernas. Costuma começar por uma dor na barriga da perna que obriga a parar ao fim de cem metros — e é quase sempre desvalorizada como "é da idade". Não é: é um aviso, e é dos mais úteis que o corpo dá.
Canos estreitos, músculo com fome
As artérias que levam sangue às pernas vão-se estreitando com placa, tal como as do coração. Em repouso, o pouco que passa ainda chega. Mas assim que se começa a andar, o músculo passa a precisar de muito mais oxigénio do que a artéria consegue entregar — e queixa-se.
Essa queixa chama-se claudicação intermitente. O nome vem do latim claudicare, coxear. O que a distingue de todas as outras dores de perna é a sua previsibilidade quase mecânica: aparece sempre ao fim da mesma distância, e passa sempre com o mesmo descanso.
Não é uma dor qualquer
| Claudicação | Outras causas comuns | |
|---|---|---|
| Quando aparece | Sempre a andar, ao fim da mesma distância | Ao levantar, ao fim do dia, sem padrão |
| Como passa | Parar de pé chega — 2 a 5 minutos | Precisa de se sentar, deitar ou mudar de posição |
| Onde dói | Barriga da perna, por vezes coxa ou nádega | Costas com irradiação, joelho, planta do pé |
| Subir escadas | Piora — exige mais do músculo | Variável |
Outros sinais
- Pés frios, mesmo com tempo ameno, e um pé mais frio do que o outro.
- Pele fina e brilhante nas pernas, com perda de pelos.
- Unhas dos pés espessas e de crescimento lento.
- Feridas nos pés ou nos dedos que demoram muito a fechar — ou não fecham.
- Nos homens, dificuldade de ereção pode ser o primeiro sinal quando o estreitamento é mais alto, nas artérias da bacia.
Quando a dor passa a aparecer em repouso — sobretudo à noite, na cama, obrigando a pôr a perna para fora ou a dormir sentado para aliviar — a doença deixou de ser claudicação e passou a ameaçar o membro. Isto não espera pela consulta de rotina.
O exame que confirma: índice tornozelo-braço
É simples, indolor e barato: mede-se a tensão no braço e no tornozelo, e divide-se uma pela outra. Num sistema arterial saudável, a pressão no tornozelo é igual ou ligeiramente superior à do braço. Quando há estreitamento, é mais baixa.
Calculadora do índice
Tornozelo ÷ braçoO que acontece com o tempo
Há aqui duas notícias, e é importante ouvir as duas.
As pernas costumam estabilizar
Ao contrário do que a maioria das pessoas teme, a claudicação não evolui inevitavelmente para amputação. Em estudos de seguimento contemporâneos, cerca de dois terços mantiveram-se estáveis ou melhoraram, e a amputação foi necessária em poucos por cento ao fim de vários anos.
O risco não está nas pernas
Está no coração e no cérebro. Quem tem claudicação tem uma mortalidade cardiovascular várias vezes superior à de quem não a tem — e morre muito mais frequentemente de enfarte ou AVC do que de qualquer problema da perna.
O tratamento mais eficaz é andar
Isto surpreende quase toda a gente: a intervenção com melhor resultado na claudicação não é um medicamento nem uma cirurgia — é um programa de marcha estruturado. Caminhar até doer estimula o corpo a desenvolver circulação alternativa à volta do obstáculo.
- Pelo menos 30 minutos por sessão
- Pelo menos 3 vezes por semana
- Durante pelo menos 3 meses
- Andar até a dor aparecer e ficar moderada — não até ser insuportável
- Parar, esperar que passe, e recomeçar — repetindo durante a sessão
Feito com supervisão, num programa organizado, os resultados são melhores do que caminhar por conta própria. Mas caminhar por conta própria, com este esquema e com disciplina, é muito melhor do que não fazer nada — e nas recomendações europeias este programa vem antes de se considerar qualquer intervenção para a claudicação.
O tabaco, nesta doença, é outra coisa
Em nenhuma outra doença cardiovascular o tabaco pesa tanto. É o fator de risco mais forte para a doença arterial periférica, e o que mais determina se ela progride ou estabiliza.
Os números são diretos: entre as pessoas que deixaram de fumar depois do diagnóstico, cerca de 86 em cada 100 estavam vivas cinco anos depois. Entre as que continuaram a fumar, 69 em cada 100.
Os medicamentos
Vale a pena separá-los em dois grupos, porque servem para coisas diferentes: uns protegem o coração e o cérebro, outros ajudam a andar mais.
| Família | Porquê | Notas |
|---|---|---|
| Antiagregante aspirina ou clopidogrel |
Reduz enfartes e AVC. Não melhora a distância de marcha. | Toma-se um dos dois, para a vida. |
| Estatina | Alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL — igual ao de quem já teve enfarte. | Além de proteger, há evidência de que melhora a distância de marcha. |
| Controlo da tensão | Alvo de sistólica entre 120 e 129 mmHg. | Ver a página da hipertensão. |
| Rivaroxabano em dose baixa + aspirina | Em doentes selecionados de alto risco, reduz cerca de um terço os eventos graves da perna. | Aumenta o risco de hemorragia — é uma decisão individualizada, com balanço explícito. |
| Fármaco | O que faz | Cuidados |
|---|---|---|
| Cilostazol | Dilata os vasos e torna as plaquetas menos pegajosas. É o que tem melhor evidência para aumentar a distância de marcha. | Dores de cabeça, diarreia e palpitações são frequentes no início. Contraindicado em quem tem insuficiência cardíaca, seja de que grau for. |
| Naftidrofurilo | Melhora a distância percorrida sem dor — efeito moderado mas real. | Alternativa quando o cilostazol não pode ser usado. |
| Pentoxifilina | Usada há décadas, mas a evidência é fraca e inconsistente. | Hoje largamente substituída pelas opções acima e pelo programa de marcha. |
Cilostazol e insuficiência cardíaca: contraindicação absoluta. Pertence a uma classe de fármacos que, em doentes com insuficiência cardíaca, se associou a mais mortes. Não é uma precaução — é uma proibição. Se tem as duas doenças, este medicamento está fora de questão, e há alternativas.
Os pés, todos os dias
Com pouca circulação, uma ferida pequena deixa de ter sangue suficiente para cicatrizar. O que noutra pessoa fecha numa semana, aqui pode não fechar nunca — e é assim que começam quase todas as amputações.
- Olhe para os pés todos os dias, incluindo entre os dedos e a planta.
- Nunca ande descalço.
- Sacuda os sapatos antes de calçar e use calçado que não aperte.
- Água morna, nunca quente. Seque bem entre os dedos.
- Hidrate a pele, mas não entre os dedos.
- Calos e unhas são para o podologista — nunca lâminas nem calicidas.
- Qualquer ferida, bolha ou mancha escura é motivo para ser visto esta semana, não no mês que vem.
Quando se desentope a artéria
Angioplastia
Um cateter com balão, introduzido por uma picada na virilha ou no braço, dilata o segmento estreitado por dentro — por vezes deixando um stent. É hoje a primeira escolha na maioria dos casos, e a recuperação é rápida.
Cirurgia de bypass
Constrói-se um desvio, em geral com uma veia da própria perna, contornando o segmento entupido. Reserva-se para obstruções muito longas ou complexas, ou quando a angioplastia não resultou.
Para a claudicação, tenta-se primeiro três meses de programa de marcha e tratamento médico completo. Na isquemia que ameaça o membro — dor em repouso, ferida que não sara, gangrena — não se espera: revasculariza-se com urgência.
Isquemia aguda: as seis horas
Se uma perna ficar de repente assim, ligue 112:
- Dor intensa e de início súbito
- Pálida ou marmoreada
- Sem pulso
- Dormente ou com formigueiro
- Fria ao toque, em comparação com a outra
- Sem força — o sinal mais tardio e mais grave
Significa que uma artéria fechou de repente. Há cerca de seis horas antes de o dano se tornar irreversível. Não espere para ver se melhora, não vá de carro, e não aqueça a perna — o tempo é o membro.
Para o que não é emergência mas não pode esperar — dor nas pernas em repouso, sobretudo à noite, ou uma ferida que não fecha — contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou a sua equipa no mesmo dia.
Em Portugal
O estudo nacional de referência encontrou uma prevalência de 5,9% no continente, 6,6% nos Açores e 3,8% na Madeira. Os próprios autores alertam que estes valores provavelmente subestimam a realidade — em países comparáveis, a prevalência ronda os 10% acima dos 50 anos e os 20% acima dos 70.
A maior parte destas pessoas não sabe que tem a doença: a claudicação é sistematicamente atribuída à idade, à artrose ou às costas, e nunca chega a ser investigada. Uma medição de índice tornozelo-braço num centro de saúde resolveria a dúvida em quinze minutos.
Mitos que vale a pena desfazer
| O que se diz | O que se sabe |
|---|---|
| "Dor nas pernas ao andar é da idade." | Dor que aparece sempre à mesma distância e passa sempre com o mesmo descanso não é da idade — é vascular até prova em contrário. |
| "Se dói a andar, devo andar menos." | É ao contrário. Andar de forma estruturada é o tratamento com melhores resultados. |
| "Isto acaba em amputação." | Na maioria das pessoas, não. Dois terços estabilizam. O risco maior está no coração, não na perna. |
| "É problema de circulação, não do coração." | É a mesma doença. Quem tem placa nas pernas tem quase sempre placa nas coronárias. |
| "Não posso tomar beta-bloqueadores." | Pode. Os estudos não confirmaram que piorem a claudicação. |
| "Já parei de fumar tarde de mais." | Nunca é tarde. A diferença de sobrevivência aos cinco anos entre quem para e quem continua é enorme. |
Perguntas frequentes
Andar com dor não estará a estragar mais a perna?
Não. Ao contrário do coração, onde a dor significa músculo em risco, na claudicação a dor muscular não deixa sequelas — e é o estímulo que leva o corpo a criar circulação alternativa. O que se pede é andar até a dor ficar moderada, parar, e recomeçar. Se tiver dor em repouso, aí sim, é outra coisa e é para comunicar.
Devo elevar as pernas?
Nesta doença, não — é o contrário do inchaço venoso. Aqui falta sangue a chegar, e elevar a perna dificulta ainda mais. Muita gente com dor noturna descobre sozinha que alivia pondo a perna para fora da cama: é a gravidade a ajudar. Se está nessa fase, comunique, porque é sinal de doença avançada.
Posso usar meias de compressão?
Não sem avaliação. As meias de compressão servem para problemas venosos; com circulação arterial comprometida podem reduzir ainda mais o sangue que chega ao pé. Se lhe recomendaram meias, confirme que quem as recomendou sabe do índice tornozelo-braço.
O frio piora?
Sim — o frio contrai os vasos e reduz ainda mais o fluxo. Mantenha os pés quentes com meias e calçado adequado, mas nunca com botijas de água quente, almofadas elétricas ou aquecedores junto aos pés: com sensibilidade diminuída, é fácil queimar-se sem dar por isso.
Tenho diabetes e isto. Muda alguma coisa?
Muda, e para pior: a diabetes danifica também os nervos, o que faz com que as feridas não doam. Perde-se o sistema de alarme ao mesmo tempo que se perde a circulação para cicatrizar. Nesta combinação, a inspeção diária dos pés e a vigilância profissional regular deixam de ser conselho e passam a ser essenciais — veja também a página da diabetes.
Fontes
- European Society of Cardiology. 2024 Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases, Eur Heart J 2024;45:3538 — primeira edição a juntar doença arterial periférica e doença aórtica, com alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL e sistólica de 120–129 mmHg.
- Ensaios COMPASS e VOYAGER PAD, e meta-análise conjunta em Eur J Prev Cardiol 2022 — rivaroxabano em dose baixa associado a aspirina.
- Cochrane Collaboration — revisões sistemáticas sobre beta-bloqueadores na doença arterial periférica, naftidrofurilo e pentoxifilina.
- Estudo CAVASIC (Scientific Reports, 2017) e literatura de história natural da claudicação intermitente — dados de progressão e amputação.
- Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular — estudo nacional de prevalência.
- International Working Group on the Diabetic Foot — recomendações de cuidados com os pés.
- Soares MA. Doença Arterial Periférica — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; os valores clínicos foram atualizados.
Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2024.