O Farmacêutico Explica Farmacoterapia para quem toma
Coração e circulação · 03

Doença arterial periférica

A mesma placa que entope as artérias do coração entope também as das pernas. Costuma começar por uma dor na barriga da perna que obriga a parar ao fim de cem metros — e é quase sempre desvalorizada como "é da idade". Não é: é um aviso, e é dos mais úteis que o corpo dá.

Isto é informação, não é uma consulta. O que lê aqui serve para perceber melhor a sua doença e as suas conversas com os profissionais de saúde. Não serve para começar, parar ou trocar medicamentos por conta própria — essas decisões são sempre do seu médico.

Canos estreitos, músculo com fome

As artérias que levam sangue às pernas vão-se estreitando com placa, tal como as do coração. Em repouso, o pouco que passa ainda chega. Mas assim que se começa a andar, o músculo passa a precisar de muito mais oxigénio do que a artéria consegue entregar — e queixa-se.

Sempre o mesmo ciclo, sempre à mesma distância 1 Anda o músculo pede mais oxigénio 2 A artéria não dá a placa limita o que consegue passar 3 Dói e pára cãibra na barriga da perna 4 Passa 2 a 5 minutos de descanso e recomeça exatamente igual É a previsibilidade que distingue esta dor de todas as outras dores de perna.
Dor que aparece sempre ao fim da mesma distância e passa sempre com o mesmo descanso. Se a dor aparece em repouso ou de noite, já não é claudicação — é sinal de alarme.

Essa queixa chama-se claudicação intermitente. O nome vem do latim claudicare, coxear. O que a distingue de todas as outras dores de perna é a sua previsibilidade quase mecânica: aparece sempre ao fim da mesma distância, e passa sempre com o mesmo descanso.

Não é uma dor qualquer

Como distinguir de outras dores nas pernas
ClaudicaçãoOutras causas comuns
Quando apareceSempre a andar, ao fim da mesma distânciaAo levantar, ao fim do dia, sem padrão
Como passaParar de pé chega — 2 a 5 minutosPrecisa de se sentar, deitar ou mudar de posição
Onde dóiBarriga da perna, por vezes coxa ou nádegaCostas com irradiação, joelho, planta do pé
Subir escadasPiora — exige mais do músculoVariável

Outros sinais

  • Pés frios, mesmo com tempo ameno, e um pé mais frio do que o outro.
  • Pele fina e brilhante nas pernas, com perda de pelos.
  • Unhas dos pés espessas e de crescimento lento.
  • Feridas nos pés ou nos dedos que demoram muito a fechar — ou não fecham.
  • Nos homens, dificuldade de ereção pode ser o primeiro sinal quando o estreitamento é mais alto, nas artérias da bacia.

Quando a dor passa a aparecer em repouso — sobretudo à noite, na cama, obrigando a pôr a perna para fora ou a dormir sentado para aliviar — a doença deixou de ser claudicação e passou a ameaçar o membro. Isto não espera pela consulta de rotina.

O exame que confirma: índice tornozelo-braço

É simples, indolor e barato: mede-se a tensão no braço e no tornozelo, e divide-se uma pela outra. Num sistema arterial saudável, a pressão no tornozelo é igual ou ligeiramente superior à do braço. Quando há estreitamento, é mais baixa.

Calculadora do índice

Tornozelo ÷ braço
÷
0,20,40,60,81,01,21,4ÍNDICErazãoDOENÇA ABAIXO DE 0,90 0,75
Leitura
Doença arterial ligeira
Compatível com doença arterial periférica ligeira. O tratamento nesta fase é sobretudo o programa de marcha, deixar de fumar, estatina e antiagregante — e é aqui que se ganha mais.
Índice calculado: 0,75  ·  105 a dividir por 140 mmHg
O índice tornozelo-braço mede-se com Doppler, por um profissional. Esta calculadora serve para interpretar um valor que já lhe deram — não substitui o exame.
Um índice acima de 1,40 não é bom sinal — é um sinal de que o exame não serve. Significa que as artérias estão tão calcificadas que a braçadeira não as consegue comprimir, o que acontece sobretudo em pessoas com diabetes de longa duração ou doença renal. Nesses casos usa-se o índice medido no dedo do pé, porque as artérias dos dedos raramente calcificam.

O que acontece com o tempo

Há aqui duas notícias, e é importante ouvir as duas.

A boa

As pernas costumam estabilizar

Ao contrário do que a maioria das pessoas teme, a claudicação não evolui inevitavelmente para amputação. Em estudos de seguimento contemporâneos, cerca de dois terços mantiveram-se estáveis ou melhoraram, e a amputação foi necessária em poucos por cento ao fim de vários anos.

A que interessa mais

O risco não está nas pernas

Está no coração e no cérebro. Quem tem claudicação tem uma mortalidade cardiovascular várias vezes superior à de quem não a tem — e morre muito mais frequentemente de enfarte ou AVC do que de qualquer problema da perna.

É esta a razão pela qual a doença das pernas se trata como doença do coração. A dor ao andar é o sintoma; o risco real é sistémico. Um diagnóstico de doença arterial periférica devia disparar sempre a mesma pergunta: e as coronárias, como estão? Veja a página da doença coronária.

O tratamento mais eficaz é andar

Isto surpreende quase toda a gente: a intervenção com melhor resultado na claudicação não é um medicamento nem uma cirurgia — é um programa de marcha estruturado. Caminhar até doer estimula o corpo a desenvolver circulação alternativa à volta do obstáculo.

A receita
  • Pelo menos 30 minutos por sessão
  • Pelo menos 3 vezes por semana
  • Durante pelo menos 3 meses
  • Andar até a dor aparecer e ficar moderada — não até ser insuportável
  • Parar, esperar que passe, e recomeçar — repetindo durante a sessão

Feito com supervisão, num programa organizado, os resultados são melhores do que caminhar por conta própria. Mas caminhar por conta própria, com este esquema e com disciplina, é muito melhor do que não fazer nada — e nas recomendações europeias este programa vem antes de se considerar qualquer intervenção para a claudicação.

O instinto é o oposto do tratamento. Quem tem dor ao andar tende a andar menos, e quanto menos anda, menor a distância que consegue. É preciso saber que a dor, aqui, não é sinal de estar a fazer mal — é o estímulo que faz crescer vasos novos.

O tabaco, nesta doença, é outra coisa

Em nenhuma outra doença cardiovascular o tabaco pesa tanto. É o fator de risco mais forte para a doença arterial periférica, e o que mais determina se ela progride ou estabiliza.

Os números são diretos: entre as pessoas que deixaram de fumar depois do diagnóstico, cerca de 86 em cada 100 estavam vivas cinco anos depois. Entre as que continuaram a fumar, 69 em cada 100.

Não há medicamento nesta página com este efeito. Se fuma e tem esta doença, deixar de fumar é, de longe, a decisão mais importante que pode tomar — e há apoio para isso, gratuito, nos centros de saúde. Peça consulta de cessação tabágica.

Os medicamentos

Vale a pena separá-los em dois grupos, porque servem para coisas diferentes: uns protegem o coração e o cérebro, outros ajudam a andar mais.

Para proteger o resto do corpo
FamíliaPorquêNotas
Antiagregante
aspirina ou clopidogrel
Reduz enfartes e AVC. Não melhora a distância de marcha. Toma-se um dos dois, para a vida.
Estatina Alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL — igual ao de quem já teve enfarte. Além de proteger, há evidência de que melhora a distância de marcha.
Controlo da tensão Alvo de sistólica entre 120 e 129 mmHg. Ver a página da hipertensão.
Rivaroxabano em dose baixa + aspirina Em doentes selecionados de alto risco, reduz cerca de um terço os eventos graves da perna. Aumenta o risco de hemorragia — é uma decisão individualizada, com balanço explícito.
Para andar mais
FármacoO que fazCuidados
Cilostazol Dilata os vasos e torna as plaquetas menos pegajosas. É o que tem melhor evidência para aumentar a distância de marcha. Dores de cabeça, diarreia e palpitações são frequentes no início. Contraindicado em quem tem insuficiência cardíaca, seja de que grau for.
Naftidrofurilo Melhora a distância percorrida sem dor — efeito moderado mas real. Alternativa quando o cilostazol não pode ser usado.
Pentoxifilina Usada há décadas, mas a evidência é fraca e inconsistente. Hoje largamente substituída pelas opções acima e pelo programa de marcha.

Cilostazol e insuficiência cardíaca: contraindicação absoluta. Pertence a uma classe de fármacos que, em doentes com insuficiência cardíaca, se associou a mais mortes. Não é uma precaução — é uma proibição. Se tem as duas doenças, este medicamento está fora de questão, e há alternativas.

E o mito dos beta-bloqueadores. Durante anos evitaram-se nesta doença por se temer que piorassem a circulação das pernas. As revisões sistemáticas não encontraram esse efeito. Se precisa de um beta-bloqueador pelo coração, ter doença arterial periférica não o impede.

Os pés, todos os dias

Com pouca circulação, uma ferida pequena deixa de ter sangue suficiente para cicatrizar. O que noutra pessoa fecha numa semana, aqui pode não fechar nunca — e é assim que começam quase todas as amputações.

  • Olhe para os pés todos os dias, incluindo entre os dedos e a planta.
  • Nunca ande descalço.
  • Sacuda os sapatos antes de calçar e use calçado que não aperte.
  • Água morna, nunca quente. Seque bem entre os dedos.
  • Hidrate a pele, mas não entre os dedos.
  • Calos e unhas são para o podologista — nunca lâminas nem calicidas.
  • Qualquer ferida, bolha ou mancha escura é motivo para ser visto esta semana, não no mês que vem.

Quando se desentope a artéria

Angioplastia

Um cateter com balão, introduzido por uma picada na virilha ou no braço, dilata o segmento estreitado por dentro — por vezes deixando um stent. É hoje a primeira escolha na maioria dos casos, e a recuperação é rápida.

Cirurgia de bypass

Constrói-se um desvio, em geral com uma veia da própria perna, contornando o segmento entupido. Reserva-se para obstruções muito longas ou complexas, ou quando a angioplastia não resultou.

Para a claudicação, tenta-se primeiro três meses de programa de marcha e tratamento médico completo. Na isquemia que ameaça o membro — dor em repouso, ferida que não sara, gangrena — não se espera: revasculariza-se com urgência.

Isquemia aguda: as seis horas

Se uma perna ficar de repente assim, ligue 112:

  • Dor intensa e de início súbito
  • Pálida ou marmoreada
  • Sem pulso
  • Dormente ou com formigueiro
  • Fria ao toque, em comparação com a outra
  • Sem força — o sinal mais tardio e mais grave

Significa que uma artéria fechou de repente. Há cerca de seis horas antes de o dano se tornar irreversível. Não espere para ver se melhora, não vá de carro, e não aqueça a perna — o tempo é o membro.

Para o que não é emergência mas não pode esperar — dor nas pernas em repouso, sobretudo à noite, ou uma ferida que não fecha — contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou a sua equipa no mesmo dia.

Em Portugal

O estudo nacional de referência encontrou uma prevalência de 5,9% no continente, 6,6% nos Açores e 3,8% na Madeira. Os próprios autores alertam que estes valores provavelmente subestimam a realidade — em países comparáveis, a prevalência ronda os 10% acima dos 50 anos e os 20% acima dos 70.

A maior parte destas pessoas não sabe que tem a doença: a claudicação é sistematicamente atribuída à idade, à artrose ou às costas, e nunca chega a ser investigada. Uma medição de índice tornozelo-braço num centro de saúde resolveria a dúvida em quinze minutos.

Mitos que vale a pena desfazer

O que se dizO que se sabe
"Dor nas pernas ao andar é da idade." Dor que aparece sempre à mesma distância e passa sempre com o mesmo descanso não é da idade — é vascular até prova em contrário.
"Se dói a andar, devo andar menos." É ao contrário. Andar de forma estruturada é o tratamento com melhores resultados.
"Isto acaba em amputação." Na maioria das pessoas, não. Dois terços estabilizam. O risco maior está no coração, não na perna.
"É problema de circulação, não do coração." É a mesma doença. Quem tem placa nas pernas tem quase sempre placa nas coronárias.
"Não posso tomar beta-bloqueadores." Pode. Os estudos não confirmaram que piorem a claudicação.
"Já parei de fumar tarde de mais." Nunca é tarde. A diferença de sobrevivência aos cinco anos entre quem para e quem continua é enorme.

Perguntas frequentes

Andar com dor não estará a estragar mais a perna?

Não. Ao contrário do coração, onde a dor significa músculo em risco, na claudicação a dor muscular não deixa sequelas — e é o estímulo que leva o corpo a criar circulação alternativa. O que se pede é andar até a dor ficar moderada, parar, e recomeçar. Se tiver dor em repouso, aí sim, é outra coisa e é para comunicar.

Devo elevar as pernas?

Nesta doença, não — é o contrário do inchaço venoso. Aqui falta sangue a chegar, e elevar a perna dificulta ainda mais. Muita gente com dor noturna descobre sozinha que alivia pondo a perna para fora da cama: é a gravidade a ajudar. Se está nessa fase, comunique, porque é sinal de doença avançada.

Posso usar meias de compressão?

Não sem avaliação. As meias de compressão servem para problemas venosos; com circulação arterial comprometida podem reduzir ainda mais o sangue que chega ao pé. Se lhe recomendaram meias, confirme que quem as recomendou sabe do índice tornozelo-braço.

O frio piora?

Sim — o frio contrai os vasos e reduz ainda mais o fluxo. Mantenha os pés quentes com meias e calçado adequado, mas nunca com botijas de água quente, almofadas elétricas ou aquecedores junto aos pés: com sensibilidade diminuída, é fácil queimar-se sem dar por isso.

Tenho diabetes e isto. Muda alguma coisa?

Muda, e para pior: a diabetes danifica também os nervos, o que faz com que as feridas não doam. Perde-se o sistema de alarme ao mesmo tempo que se perde a circulação para cicatrizar. Nesta combinação, a inspeção diária dos pés e a vigilância profissional regular deixam de ser conselho e passam a ser essenciais — veja também a página da diabetes.

Fontes

  • European Society of Cardiology. 2024 Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases, Eur Heart J 2024;45:3538 — primeira edição a juntar doença arterial periférica e doença aórtica, com alvo de LDL abaixo de 55 mg/dL e sistólica de 120–129 mmHg.
  • Ensaios COMPASS e VOYAGER PAD, e meta-análise conjunta em Eur J Prev Cardiol 2022 — rivaroxabano em dose baixa associado a aspirina.
  • Cochrane Collaboration — revisões sistemáticas sobre beta-bloqueadores na doença arterial periférica, naftidrofurilo e pentoxifilina.
  • Estudo CAVASIC (Scientific Reports, 2017) e literatura de história natural da claudicação intermitente — dados de progressão e amputação.
  • Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular — estudo nacional de prevalência.
  • International Working Group on the Diabetic Foot — recomendações de cuidados com os pés.
  • Soares MA. Doença Arterial Periférica — Farmacoterapia II, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Documento que serviu de base à estrutura desta página; os valores clínicos foram atualizados.

Revisão do conteúdo: agosto de 2026. Próxima revisão prevista: agosto de 2027. Guidelines citadas: ESC 2024.